sábado, 24 de agosto de 2019

O Caminho das Índias

1. TRATADO DE TORDESILHAS

Tendo a Ordem de Cristo, do Reino de Portugal, em 1436, recebido da Igreja uma autorização de possuir todas as terras desde o Cabo Bojador até as Índias, descobertas e a descobrir, quando Colombo, acidentalmente após um temporal, desembarca em Lisboa e D. João II vê os indígenas que ali estavam, causa grande confusão, pois o Rei achou que a Espanha estava descumprindo a ordem da Igreja em relação à "Índia", nem eles mesmos sabiam que se tratava de um novo continente.

Então, em 1493, o Reino da Espanha logo pediu a confirmação daquelas descobertas para a Igreja, sendo Ela, na época, árbitra suprema dos negócios entre reinos cristãos. O Papa Alexandre VI não hesitou em conceder o que era pedido, no entanto, através de uma Bula chamada "Inter Caetera", para evitar dissenções entre os reinos, traçou uma linha imaginária desde o Polo Norte até o Polo Sul do Globo terrestre, passando a cem léguas da Ilha dos Açores e de Cabo Verde, autorizando por este documento aos soberanos espanhóis tudo o que já se tinha descoberto e se viesse a descobrir a Oeste desta linha, e à Portugal tudo ao Oriente da linha, com tanto que não tivesse sido ocupado por nenhum príncipe cristão antes do dia do Natal neste mesmo ano.

Porém, D. João II, ressentido por estarem subvertendo a ordem de sucessivos papas, que confirmavam a Bula de 1436 do Papa Eugênio IV, intercedeu à Cúria Romana e ao Reino da Espanha, porém não obteve sucesso. 

O único jeito do Rei de Portugal resolver a suposta "injustiça" era preparando uma guerra contra reino de Castela. D. João II começou então os preparativos para entrar em guerra contra a Espanha, entretanto, sabendo deste acontecimento, o Rei Fernando de Castela tratou de mandar embaixadores para resolverem de forma pacífica com Portugal, por mais que, para isso, cedessem parte do território autorizado pelo Papa. 

Foi então que, no dia 7 de junho de 1494 foi assinado na Cidade de Tordesilhas (Espanha), um acordo entre o Reino de Portugal e de Castela, onde o território de Portugal se acrescentaria mais duzentos e setenta léguas, totalizando trezentos e setenta léguas a Oeste de Cabo Verde e Açores.[1] 

[1] (J. de Vasconcelos, Datas Célebres e Fatos Históricos do Brasil; P. R. Galanti, Compêndio da História do Brasil)

2. VASCO DA GAMA


Vasco da Gama
Subindo ao trono em 1495 o Rei D. Manuel (Reinado: 1495 - 1521), querendo continuar o trabalho missionário de seu tio, o Infante D. Henrique, de expansão da Civilização Cristã, contra os Mouros e infiéis, e para honra da Igreja Romana e o Reino de Portugal, decide logo mandar uma expedição para descobrir o tão sonhado caminho das Índias.[2]

Em 1497, o Rei confiou a Vasco da Gama, nobre e fidalgo português, a empreitada de descobrir o caminho das Índias Orientais através dos mares. 

No dia 8 de julho de 1497, na Capela de Nossa Senhora da Invocação, em Belém, Vasco da Gama e os outros capitães, juntos com toda a população da Cidade, assistiram a uma Missa, fizeram uma procissão acompanhada de uma ladainha, que os Sacerdotes iam cantando e receberam uma confissão geral, absolvendo toda a tripulação daquela viagem.

A frota era composta por aproximadamente 170 pessoas em três navios chamados: S. Gabriel, S. Rafael e Berrío, o primeiro sendo comandado por Vasco da Gama e o segundo por seu irmão Paulo da Gama.[3]

[2] (Sobre a razão do "sonho" de se descobrir o Caminho das Índias Orientais, é necessário relembrar, como foi feito já anteriormente em nosso artigo, o objetivo das Expansões Marítimas iniciadas pelo Infante D. Henrique. É constantemente ensinado por historiadores contemporâneos e "professores" de história do Ensino Médio e Fundamental que o objetivo principal das Expansões eram as riquezas que aquelas regiões poderiam oferecer à Portugal, o que já sabemos que não condiz com a verdade.) 
[3] (J. de Barros, Dec. I, liv. IV, Cap. II)

3. A VIAGEM ATÉ CALECUT

Após cinco meses de navegação, afim de observar a altura do sol, pois assim era a logística da viagem, Vasco da Gama desembarcou na Baía de S. Helena[4]. Em 1498 aportou em Moçambique, onde vivia um povo muçulmano. O navegante então recebeu do Xeque[5] de do país dois guias, designados a auxiliar as frotas para chegar até a Índia. Entretanto, ambos fugiram, de modo que foram substituídos por outro guia, o qual, julgou o chefe daquele povoado, conhecer mais o caminho até a Índia. 

No entanto, este guia, mal intencionado ou por orientações do Xeque ou por seu próprio ódio contra os cristãos, levava toda a frota para uma armadilha na Cidade de Quiloa[6], mentindo que aquela região era povoada por cristãos, quando, ao contrário, era tomada por mouros. Contudo, como que por um milagre de Nosso Senhor, uma tempestade tomou o caminho e os desviou para longe da costa. No dia sete de abril, chegaram próximos à uma cidade chamada Moçamba[7], que, da mesma forma, o Mouro informou que ali haviam cristãos e indianos. Toda via, mais uma vez a Providência Divina livrou os portugueses de mais uma armadilha que aqueles muçulmanos ali lhes preparavam.

Tendo o guia mouro fugido, e eles capturado uma embarcação com treze mouros, com a intenção de algum deles os orientar para chegar até a Índia, os navegantes chegaram até a cidade de Melinde[8], região onde havia muitos mercadores de especiarias da Índia, os quais poderiam ajudá-los a chegar em Calecut.

Deste modo retratou o poeta Luís de Camões da negociação entre os navegantes e o Rei de Melinde: 

"Como na terra ao Rei se apresentasse,
Com estilo que Palas lhe ensinava,
Estas palavras tais falando orava: [...] 
«Não somos roubadores que, passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vão matando,
Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
Mas, da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da Índia, grande e rica, por mandado
De um Rei que temos, alto e sublimado.»[...]
E com risonha vista e ledo aspeito,
Responde ao embaixador, que tanto estima:
- «Toda a suspeita má tirai do peito,
Nenhum frio temor em vós se imprima,
Que vosso preço e obras são de jeito
Para vós ter o mundo em muita estima;
E quem vos fez molesto tratamento
Não pode ter subido pensamento.[...]
«Porém, como a luz crástina chegada
Ao mundo for, em minhas almadias
Eu irei visitar a forte armada,
Que ver tanto desejo há tantos dias.
E, se vier do mar desbaratada
Do furioso vento e longas vias,
Aqui terá de limpos pensamentos
Piloto, munições e mantimentos.»[...]"[9] 

Assim, estabeleceu a paz com aquele reino e conseguiu um piloto até Calecut.[10] 

[4] (Atualmente território da África do Sul)
[5] (Autoridade islâmica)
[6] (Atualmente território da Tanzânia)
[7] (Atualmente território da Quênia)
[8] (Atualmente território da Quênia)
[9] (L. de Camões, Os Lusíadas, Canto II)
[10] (J. de Barros, op. cit., Cap. IV)

3. CALECUT

Finalmente chegaram em 1498 em nas Índias Orientais. Naquela época, os habitantes de Calecut eram pagãos e mouros, principalmente naturais de Meca e Cairo, devido ao grande comércio de especiarias presente naquela região.

Os portugueses foram muito bem recebidos pelo Samorim de Calecut, o que equivaleria a Imperador em nossos conhecimentos ocidentais, o qual elogiou constantemente Vasco da Gama, como homem prudente, de boa fé e ótimo negociador.

Vasco da Gama perante o Samorim de Calecut


Entretanto, os Mouros que lá viviam, tantos os nascidos, quanto os estrangeiros, que eram senhores do comércio da cidade, percebendo a aproximação do Samorim com os portugueses, trataram logo de envenena-lo com falsas histórias e até astrologia para difamar a frota cristã. 

Com medo de perder o monopólio comercial dos países mouros, que lhes dava segurança comercial, vassalos, além de proximidade geográfica, de modo contrário dos portugueses que precisavam de meses para chegar até ali, o Samorim decidiu por não fechar acordo com eles, e os despediu.[11] 

[11] (P. R. Galanti, op. cit., pg. 24; J. de Barros, op. cit., Cap. IX)

4. VOLTA À PORTUGAL

Saíram então de Calecut e retornaram à Melinde em janeiro de 1499, onde o Rei mandou um embaixador até D. Manuel.

Na viagem de retorno acabaram perdendo o navio S. Rafael e faleceu também, como já estava doente, seu irmão, Paulo da Gama.

Antes de chegar em Lisboa, em 29 de agosto de 99, Vasco da Gama se dirigiu à Capela de Nossa Senhora da Invocação, para agradecer à Nosso Senhor por sua feliz viagem.

Foi recebido pelo Rei e pelo povo, com grande honra e festa. Recebeu o título de Dom, de conde da Vidigueira, e de Almirante dos mares da Índia, juntamente com a renda de trezentos mil réis anuais, e outros privilégios estimados.[12] 

[12] (P. R. Galanti, op. cit.)

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Constantino, o Grande

1. A BATALHA DA PONTE MÍLVIA

Após a declaração de guerra de Magêncio, Constantino avançou contra as suas tropas em direção a Roma.

Segundo os historiadores Eusébio de Cesaréia (265 - 339) e Lactâncio (250 - 325), ambos afirmam que Constantino viu em sonho os símbolos[1] que deveriam ser usados por seu exército para vencer a guerra. Conta o historiador Zósimos (século V) que antes da batalha Magêncio se refugiou no seu castelo para consultar oráculos e videntes, e realizar sacrifícios aos deuses pagãos.[2]

Batalha da Ponte Mílvia
Constantino marcou em seus escudos com a Cruz de Cristo e avançou contra o exército de Magêncio. Quando estavam no embate, se encontrava Magêncio junto com seu exército na Ponte Mílvia, sob o Rio Tibre, que ele mesmo construiu para guerra, no entanto a ponte não aguentou o peso e ruiu, fazendo com que o tirano se afogasse junto com suas tropas.[3]

[1] (Alguns historiadores secundários interpretam Lactâncio afirmando que Constantino teria marcado seus escudos com as letras gregas "X" e "P", que juntas produziam um monograma formando o nome de Cristo)
[2] (Lactâncio, De Morte Persecutorum, 43)
[3] (Zosimus, Nova História)

2. O GOVERNO DE CONSTANTINO

Após a derrota de Magêncio, Constantino acabou por selar a paz com Licínio, por ter ajudado na guerra.

Licínio ficou então como "Augusto" do Oriente em 312, porém se tornou inimigo cruel dos cristãos, Constantino, então protegendo os cristãos, foi a guerra contra Licínio, que acabou se rendendo em 314. Entretanto, Licínio declarou guerra uma segunda vez, foi derrotado em Tessalônica[4] e posteriormente se enforcou.

Constantino, apesar de ter sido influenciado por sua mãe, S. Helena (250 - 330) não se declarou cristão a princípio, nem declarou esta como a religião do Império, porém, protegeu o cristianismo e reconheceu aos cristãos, através do chamado Edito de Milão (313) o direito de culto público, e também, o direito da Igreja Católica possuir terras, de manter autonomia sem interferência do Império em suas leis e de acolher em suas igrejas criminosos e escravos.

Adotou também políticas de Estado vindas da moral cristã, tais como: a proibição da escravidão, a proibição de vender e/ou matar os filhos, seja dentro do ventre da mãe[5] ou fora, auxílio estatal às famílias pobres que não conseguissem criar seus filhos, proibição da crucificação, combates dos gladiadores, etc..[6]

[4] (Atualmente território da Grécia)
[5] (Segundo os costumes da civilização da época, a mulher que não quisesse ter seu filho poderia tomar venenos abortivos que matassem seu filho dentro do seu ventre ainda.)
[6] (J. J. da Rocha, Compêndio da História Universal, Vol. I, Cap. XXXVIII, pg. 185; P. R. Galante, Compêndio da História Universal, "História Romana", P. III, Ep. V, 156)

3. PRIMEIRO CONCÍLIO DE NICÉIA

Surgiu neste meio tempo um diácono de Alexandria chamado Ário (250 - 336), que afirmava hereticamente que N. S. não era Deus, ou seja, negava a divindade de Jesus Cristo. Vendo tamanha confusão causada por essa heresia no Oriente, o Imperador Constantino convoca em 325 o chamado I Concílio de Nicéia, onde propõe para a Igreja resolver o embate que havia até então entre S. Alexandre (250 - 326) que defendia a divindade de Jesus e Ário que negava.

No Concílio estavam presentes 318 padres, que decidiram: excomungar Ário, o celibato dos padres, a data da Páscoa, e a hierarquia da Igreja, estabelecendo patriarcas, arcebispos, bispos diocesanos nas capitais e províncias, presbíteros, diáconos e subdiáconos encarregados de visitar os enfermos e as ordens menores dos acólitos, exorcistas, leitores e porteiros e principalmente confirmando a Primazia do Bispo de Roma como sucessor de S. Pedro e chefe da Igreja.
Concílio de Nicéia

Uma advertência há de ser feita aqui ao leitor sobre este assunto, pois, há uma certa discussão levantada por cismáticos e hereges em que teria uma suposta "interpretação" do Cânon 6 deste concílio, onde diria, segundo esses hereges, que o Bispo de Roma não teria autoridade nenhuma sob os outros bispos, de modo contrário, teria a mesma autoridade dos patriarcas. Sem entrarmos no mérito da discussão de "traduções" e "interpretações" do Cânon, como já demonstramos a primazia do Papa no artigo anterior nos primeiros três séculos, portanto, antes de Nicéia, não precisamos ir muito depois do término do Concílio para confirmamos a existência de uma autoridade na Igreja Cristã.

Provamos isto em quatro documentos específicos do século IV:

I. Carta do Papa Júlio I (Pontificado: 337 - 352) aos Antioquenos datada do ano de 341, onde o Sumo Pontífice adverte a Igreja de Antioquia para preservar a hierarquia da Igreja Católica decidida no I Concílio de Nicéia, que diz: "[...] segundo o cânon eclesiástico [...] Porque não foi escrito à nós?[Roma] Por acaso ignorais que o costume era este: que se escreva primeiro a nós e daí venha a ser estabelecido o que é justo?"[7]

II. Concílio de Sárdica do ano de 343, onde seguindo o Concílio de Nicéia, ordenava os bispos a recorrerem à autoridade da Sé de Roma: "Se, porém, aparecer que um dos bispos em determinada causa tenha sido condenado, e ele estiver convencido de ter não uma causa débil, porém justa, de modo que o veredicto possa ainda ser renovado, se parecer bem à vossa caridade, honremos a memória do Apóstolo Pedro, e escreva-se, por parte daqueles que julgaram, a [Júlio,] o bispo de Roma, para que, se necessário, os bispos vizinhos daquela província renovem o julgamento, e que ele designe os árbitros [...] se um bispo foi acusado, e os bispos da sua região, reunidos, o tiverem removido de seu grau, e ele, como apelante, se refugiou junto ao beatíssimo bispo da Igreja dos romanos e <este> quiser ouvi-lo e achar que seja justo, seja renovado o exame de sua causa, ele se digne escrever aos bispos vizinhos daquela província, para que eles, com solicitude e diligência, tudo indaguem e, segundo a credibilidade da verdade, apresentem uma sentença sobre a causa."[8]

III. Carta do Concílio de Sárdica do ano de 343, confirmando, não só a decisão de recorrer à Sé de Roma, mas também que ele é a cabeça da Igreja: "Esta, de fato, parecerá ser a coisa melhor e mais apropriada: que os sacerdotes do Senhor de todas as províncias recorram à cabeça, isto é, à sé do Apóstolo Pedro."[9]

IV. Carta do Papa Sirício respondendo ao bispo da província de Tarragona[10] sobre o batismo dos hereges e o celibato dos padres: "Não negamos a resposta correspondente à tua consulta, já que, em consideração ao nosso ministério, não podemos dissimular nem temos a liberdade de calar, pois que nos incumbe, mais do que a todos, o zelo pela religião cristã. Levamos o peso de todos os que estão sobrecarregados; ou, mais ainda, leva-o conosco o bem aventurado apóstolo Pedro, que em tudo, conforme acreditamos, nos protege e defende enquanto herdeiros do seu ministério. [...] acompanhando uma carta tua, tudo quanto por Nós em salutar disposição foi estabelecido obtemos assim, de um lado, que permaneçam incorruptas aquelas coisas que, não desconsideradamente, mas com previsão, com máxima prudência e ponderação, foram salutarmente estabelecidas por nós; de outro, que a todas as futuras escusas se feche o acesso, que junto a Nós a ninguém mais poderá ficar aberto."[11]

[7] (Denz. Hünermann, 132) 
[8] (Op. cit., 133 e 135) 
[9] (Op. cit., 136) 
[10] (Atualmente cidade da Espanha)
[11] (Op. cit., 181 e 182)

4. O FIM DA VIDA DE CONSTANTINO

Constantino após transferir a capital do Império de Roma para Bizâncio, o que depois tomou o nome de Constantinopla, no fim de sua vida foi convencido por arianos infiltrados em sua corte de que Ário estaria certo em sua doutrina. Foi batizado por Eusébio de Nicomédia, bispo ligado à Ário.

O Imperador exilou S. Atanásio (296 - 373) que tanto lutou contra o arianismo em Alexandria, matou seu próprio filho Crispo (299 - 326) que, por ciúme, fora acusado por sua madrasta e posteriormente, reconhecendo a inocência do filho e se arrependendo, mandou matar sua esposa Fausta (289 - 326).

Constantino, o Grande, faleceu no ano de 337, na cidade de Nicomédia, Turquia.[12]

[12] (J. J. da Rocha, Op. cit., pg. 188)

terça-feira, 30 de julho de 2019

Cristãos Primitivos - PARTE III

1. PRIMEIRAS CAUSAS DAS PERSEGUIÇÕES

Como já dissemos em outro artigo, se encontrava a civilização naquela época tomada de sensualidade e desvirtuação, agindo como verdadeiros animais. O triunfo dessa sociedade foi o Império Romano, que através de suas perseguições e crueldades germinou o cristianismo por todo o Mundo, fazendo com que, a cada sangue derramado, fosse plantado mais adeptos à verdadeira Religião.

Neste mundo se encontraram os cristãos, que pregavam penitência contra a sensualidade, purificação, abstinência e castidade.

A. Judeus

Por causa das confusões causadas pelos hereges (entenda aqui), principalmente os nazarenos e ebionitas, pelas calúnias dos filósofos, e também por pregarem que um nascido judeu era o próprio Deus, os cristãos eram constantemente confundidos com os judeus, para os romanos "cristão" e "judeu" era a mesma coisa. Os romanos tinham um ódio implacável dos judeus, pois estes, constantemente planejavam e conspiravam contra o Império Romano. Exemplo disto foram as três revoluções que fizeram, uma no Império de Nero e outras duas sob o de Trajano e Adriano, nas quais morreram milhões de judeus e romanos.

B. Religião

Os cristãos celebravam suas reuniões secretamente, guardando profundo respeito aos seus mistérios, obedecendo o que disse N. S. Jesus Cristo: "Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas[...]"[1]. Por isso, os imperadores obrigavam os cristãos a idolatrarem a pátria e o imperador, e os que se negavam eram considerados antipatriotas, inimigos públicos, ímpios e até ateus.

[1] (Ev. S. Mateus, Cap VII, v.VI)

2. JUDEUS

Os judeus odiavam os cristãos principalmente porque estes não pegavam em armas contra os romanos, o que faziam com bastante frequência os judeus, vide as guerras judaico-romanas.

Assassinaram a pedradas S. Estevão e S. Tiago menor, assassinaram também S. Tiago maior e prenderam S. Pedro, além de incontáveis cristãos que privaram da vida, mas os garantiram a vida eterna.
Martírio de S. Estevão, assassinado por judeus

Saulo de Tarso, que depois viria a ser convertido e renomeado por N. S., era o espelho dos judeus e dos implacáveis assassinos e perseguidores de cristãos da época.[2]

[2] ("[...] Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, apresentou-se ao sumo sacerdote e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém quantos adeptos deste caminho(doutrina) encontrasse, homens e mulheres.[...] Encerrei em cárceres muitos santos, e tendo recebido, para isso, poder dos príncipes dos sacerdotes, e, quando os faziam morrer, dava o meu voto. Muitas vezes, percorrendo as sinagogas, usava com eles de crueldade, obrigando-os a blasfemar; e enfurecendo-me mais e mais contra eles, perseguia-os até nas cidades estrangeiras." Lv. dos Atos dos Apóstolos Cap. IX v. I e II; Cap. XXVI, v. X e XI)

3. IMPERADORES E SUAS PERSEGUIÇÕES

Martírio dos primeiros católicos
Com esses facínoras os cristãos morriam de diversas formas, entre elas: ser lançados aos leões do circo, queimados, crucificados, entre outras crueldades atrozes.

I. Nero (Reinado: 54 - 68)

Começou bem seu reinado, porém logo entregou-se a todos os vícios que o deram fama. Fez vítimas tais como sua própria mãe, sua esposa e generais do seu exército. Decretou a primeira perseguição aos cristãos, culpando-os pelo incêndio de Roma, que ele mesmo causou. Por ser admirador das artes morreu exclamando: "Que artista o mundo vai perder!"

II. Domiciano (Reinado: 81 - 93)

Louco e cruel como Nero e Calígula. Expulsou de Roma os filósofos, proibiu o cultivo da vinha e assassinou envenenado o General Romano Agricola, aquele que conquistou a Grã-Bretanha. Neste período, S. João foi mergulhado em um caldeirão de água fervente, como não morreu, foi enviado à Patmos, onde escreveu o Livro do Apocalipse.

III. Trajano (Reinado: 98 - 117) e Adriano (Reinado: 117 - 138)

Celebrou suas vitórias com jogos que duraram 123 dias, nos quais faleceram dez mil gladiadores. Consultando o seu panegírico Plinio, o Jovem, a respeito dos cristãos, este respondeu ao imperador: "Eis de que modo me comportei até o momento com aqueles que foram conduzidos diante de mim e acusados de ser cristãos. Perguntei diretamente a eles se são cristãos. Ao responder-me que sim, perguntei-lhes uma segunda e até uma terceira vez, advertindo-lhes que o reconhecimento de algo assim expressaria a morte. Aos que mantiveram sua declaração, ordenei que os executassem. A razão disso foi que não me cabia dúvida de que, qualquer que fosse a natureza do crime que confessavam, certamente este fanatismo e esta obstinação intransigente merecia a morte."[3] Por sua vez, o Imperador Adriano duplicou o salário dos soldados, perseguiu os cristãos e declarou guerra implacável os judeus. Destruiu a cidade de Jerusalém, e construiu uma outra em seu lugar chamada Élia Capitolina. Tinha uma relação homossexual e pedófila com o seu escravo sexual Antinoo, que era 38 anos mais novo que ele.


IV. Marco Aurélio (Reinado: 161 - 180)

Dividiu seu governo com Lúcio Vero (161 - 169), seu genro; combateu revoltas populares e expulsou os bárbaros. Quando estava em uma guerra contra os marcomanos[4] contava-se entre o exército uma Legião só de cristãos, estes já estavam cansados e morrendo de sede, após serem cercados, todos começaram a suplicar misericórdia a Deus, e ficaram livres graças a uma chuva milagrosa que saciou a sede dos soldados e, se transformando em um temporal, expulsou os inimigos com raios e trovoadas.[5] Tal acontecimento deu uma pausa à perseguição aos cristãos.

V. Sétimo Severo (93 - 211)

Matava cruelmente seus inimigos. Faleceu em York[6] dizendo: "Tudo fui e vi que nada vale!".

VI. Maximiano (235 - 238)

Tirano cruel, se matou enforcado, após ter tido o trono usurpado.

VII. Décio (249 - 251)

Morreu em uma invasão de bárbaros na cidade de Mésia.[7]

VIII. Valeriano (253 - 260)

Teve o Império invadido pelos bárbaros, foi preso pelos Persas e morreu esfolado vivo.

IX. Aureliano (270 - 275)

Resistiu à invasões de bárbaros que invadiam a Itália, na batalha contra os Persas, morreu vítima de uma conspiração vinda do seu próprio secretário.

[3] (Plinio, Cartas, L. X, Ep. 96, pg. 81)
[4] (Tribo germânica ligada aos suevos)
[5] (Esta Legião ficou conhecida como "Fulminante")
[6] (Atualmente território da Inglaterra)
[7] (Atualmente território da Sérvia)


4. TETRARQUIA E A DÉCIMA PERSEGUIÇÃO

Diocleciano (Reinado 284 - 305) apagou todos os vestígios da antiga república romana. Dividiu o Império entre Ocidental e Oriental. Nomeou Maximiano Hércules (Reinado: 286 - 305) como "Augusto" do Ocidente, de modo que ele seria hierarquicamente inferior, enquanto Diocleciano ficou "Augusto" do Oriente.

Tendo dividido em duas partes o Império, os "Augustos" nomearam "Césares", que ficariam como uma espécie de príncipes do Império, abaixo da autoridade dos "Augustos".

Diocleciano nomeou como "César" do Oriente Maximiano Galério (Reinado: 293 - 305), assim como Maximiano Hércules nomeou para o Ocidente Constâncio Cloro (Reinado: 293 - 305), configurando assim a "Tetrarquia".

I. Diocleciano

Depois de conseguirem diversas vitórias, Diocleciano mandou cunhar uma moeda com a inscrição "Cristiano nomine deleto" (Exterminando o nome de Cristo). Abdicou posteriormente junto com Maximiano Hércules o seu posto de "Augusto". Morreu de fome, depois de cuspir sua língua cheia de vermes.

II. Maximiano Hércules

Constantino, que já falaremos sobre esse imperador mais a frente, era sobrinho de Hércules, que por diversas vezes o "Augusto" tentou matar, fez com que Maximiano se enforcasse com suas próprias mãos.

III. Constâncio Cloro

Após a abdicação de Maximiano Hércules, assumiu o trono. Se recusou a perseguir os cristãos, e após morrer, passou seu título de "Augusto" do Ocidente a Constantino, seu filho.

5. FIM DA TETRARQUIA

Após a abdicação de Diocleciano e a morte de Constâncio, Maximiano Galério, sendo o "Augusto" do Oriente, reconheceu Constantino como, na verdade, "César" do Ocidente e nomeou em seu lugar Valério Severo (Reinado: 305 - 307) como "Augusto" do Ocidente, então passou a governar a Itália e a África.

No entanto, após a morte de Maximiano Hércules, seu filho Magêncio (Reinado: 306 - 328), influenciado por populares revoltados com os impostos do Império, reclamava por hereditariedade o título de "Augusto" do Ocidente, dado por Galério à Severo.

Valério, após Magêncio dar o golpe apoiado por populares, e ser proclamado "Augusto" da Itália e da África, foi preso em Ravena[8] e foi obrigado a se suicidar cortando suas veias.

Sendo Galério ainda "Augusto" do Oriente nomeou Maximiano Daia (Reinado: 305 - 313) como "César" da Ásia e Licínio (Reinado: 307 - 324) como "César" do Egito. Perseguiu ferozmente os cristãos, e morreu com seu corpo apodrecido, caindo aos pedaços.

Após a morte de Galério, Maximiano Daia e Licínio dividiram os territórios de Galério.

Daia perseguiu ferozmente os cristãos, provocou o martírio de S. Catarina de Alexandria, se aliou a Magêncio e rompeu com Licínio, este declarando guerra a ele, de quem perdeu sua última batalha, e morreu de dores horríveis após ser envenenado.

Magêncio, sendo tirano da Itália e da África, resolveu vingar a morte do seu pai e declarou guerra à Constantino. Licínio, nesta batalha que ficaria conhecida como "A Batalha da Ponte Mílvia", se aliou a Constantino.

Esta batalha seria o início do triunfo do cristianismo, após trezentos anos de sofrimentos e martírios.

[8] (Atualmente território da Itália)




FONTES BIBLIOGRÁFICAS:

P. R. Galante, Compêndio da História Universal, "História Romana", P. III, Ep. I, 148; Ep. II, 150, 151; Ep. III 152 e 154; Ep. IV, 155.
J. J. da Rocha, Compêndio da História Universal, T. I, Cap. XXXVIII, pgs. 182-184.



segunda-feira, 29 de julho de 2019

A Verdade sobre o Descobrimento da América

1. S. TOMÉ

Segundo historiadores, o primeiro a evangelizar o nosso Continente foi S. Tomé, o Apóstolo de N. S. Jesus Cristo. 

Sabe-se que, quando os Apóstolos se dividiram após a morte de Jesus Cristo, S. Tomé ficou responsável por evangelizar a parte da Etiópia e da Índia, entendendo-se então que, por Providência Divina, S. Tomé teria encontrado e desembarcado em nossas Terras.
Pegada de S. Tomé em S. Vicente, Baía

A. América Espanhola

Após os espanhóis chegarem na América, encontraram diversas cruzes, letras que lembravam o nome do Apóstolo e figuras que representavam S. Tomé em nossas terras. Além disso, são encontradas as mesmas evidências em Cuba, onde o chamavam de "Cemi" e no Haiti de "Tzemes".[1] 

B. América Portuguesa

Os nativos afirmavam que tinha passado por aquelas regiões um homem barbado com o nome de "Sumé" que os ensinaram doutrinas da eternidade e a cultivar mandioca, porém não foi ouvido por eles e acabou indo embora.[2] 

Afirmam ainda que ele teria partido em S. Vicente, Baía, onde deixou uma pegada, que os índios mostraram tanto aos portugueses quanto para os jesuítas.[3] 

[1] (R. Pita, História da América Portuguesa, L. I, 104; Varnhagen, História Geral do Brasil antes da sua separação e Independência de Portugal, T. I, S. IV, pg. 42)
[2] (Varnhagen, Op. cit.)
[3] (R. Pita, Op. cit., 105; J. Anchieta, Cartas, Informações e Frag. Históricos do Pe. José de Anchieta, Cap. XXIX, pg. 332)

2. CRISTOVÃO COLOMBO

Nascido em Gênova, Itália, em 1436, Cristovão Colombo, se dedicou à navegação e adquiriu através dos estudos e das viagens que fez, vasta experiência na área cosmográfica.

Colombo estudou diversas obras que corroboravam em afirmar que existia uma terra do outro lado do Oceano, o que ele acreditava ser a costa da Ásia Oriental. A principal delas foi do Cardeal francês Pedro d'Ailly, cujo exemplar da obra estudada por Cristovão,  foi encontrada na Biblioteca de Sevilha contendo diversas notas do navegante genovez. Ademais, Colombo ainda estudou o "Imago Mundi", obra geográfica do século XV a.C., e uma carta de Toscanelli, astrônomo italiano, ao cônego português Fernão Martins, que ele próprio enviou uma cópia a Colombo, onde continha diversos estudos e mapas para se chegar à Índia navegando pelo o Ocidente.[4] 

O genovez foi tratado como louco em seu país e em outras nações. Seu plano foi rejeitado por D. João II (Reinado 1477 - 1495) de Portugal e também igualmente rejeitado pela Inglaterra e pela França.

Também foi rejeitado pelo Rei da Espanha, Fernando, o Católico. Passados oito anos de perseverantes tentativas do genovez, a Rainha de Castela, Isabel, a Católica, penhorou suas próprias jóias acreditando na eficácia de suas descobertas. O que fez com que lhe desse três navios chamados: S. Maria, Pinta e S. Clara ou Ninha[5] 

[4]  (Varnhagen, Op. cit., S. V, pg. 64)
[5]  (Apelidada assim por causa de seu proprietário Juan Niño).

3. NOVO MUNDO

No dia 3 de agosto de 1492, iniciou sua expedição do Porto de Palos[6] com o título de Almirante e de Vice-Rei de todas as ilhas, mares e terras que encontrasse. 

Na viagem tiveram de superar muitas dificuldades por causa de um temporal que enfrentaram e também por causa do desânimo da tripulação. Entretanto na madrugada do dia 11 para 12 de outubro do mesmo ano avistaram a Ilha de Guanahani[7], onde Cristovão Colombo deu o nome de S. Salvador. Ali cantou o Te-Deum[8] e erguendo uma cruz, tomou posse das terras em nome do Reino de Castela. 


Cristovão Colombo chegando em S. Salvador
Da mesma forma descobriu a ilha de Cuba e do Haiti, esta última dando o nome de S. Domingos ou Espanhola. No Haiti construiu um forte onde deixou 38 soldados para proteger as terras descobertas. 

No dia 6 de março de 1493, devido à um temporal, acabou tendo que desembarcar em Lisboa com indígenas que capturou no caribe para levar à Espanha. D. João II vendo aquilo, o acolheu, no entanto, ficou preocupado, achando que esses nativos eram da Índia, que há tanto tempo procurava Portugal. No mesmo mês, voltou triunfante para a Espanha, onde foi recebido com honrarias e festas que lhe era devido, porém isso irritou alguns invejosos do genovez, que logo depois armaram um plano para derruba-lo.[9]

[6] (Atualmente território da Espanha)
[7] (Atualmente território das Ilhas das Bahamas)
[8] (Hino Cristão composto por S. Ambrósio e S. Agostinho)
[9] (P. R. Galante, História do Brasil, T. I, 20, pgs. 16-20)

4. PRISÃO E MORTE DE COLOMBO

Em suas três viagens seguintes visitou mais algumas ilhas e explorou parte considerável da costa do continente.

Na segunda viagem foi denunciado ao Reino por alguns desordeiros que Colombo castigou durante a expedição. Na terceira viagem foi preso por Bobadilla[10], que o mandou de volta para Espanha.

Logo que a Rainha Isabel soube da prisão, mandou imediatamente soltá-lo, porém o Rei Fernando não restituiu seus títulos e também não autorizou uma quarta viagem.

Em 1504, encontrou a Rainha Isabel em seu leito de morte, porém foi desprezado mais uma vez pelo Rei da Espanha, que o deixou morrer em estado de miséria na cidade de Valladolid, na Espanha, em 1506.

Suas cinzas, depositadas primeiro na Catedral de Sevilha, foram depois transferidas para o Haiti, e mais tarde para Havana. 

Cristovão Colombo foi de tal forma importante para as descobertas de nossas terras, que, no seu túmulo em Sevilha, escreveram: "A Castilla y Aragón, Nuevo Mundo dio Colón."

O genovez não teve nem se quer a glória de herdar o seu nome ao continente que descobriu, pelo fato de Américo Vespúcio (1454-1512), que navegou tanto por Portugal quanto pela Espanha, ganhar tanta fama com seus diários de viagens, que acabou herdando seu nome ao Novo Mundo.[11]

[10] (Oficial da Ordem de Calatrava)
[11] (P. R. Galante, Op. cit.)

sábado, 27 de julho de 2019

D. Henrique e o Novo Mundo

1. OBJETIVO DE PORTUGAL

Infante D. Henrique
No princípio, os principais objetivos do Reino de Portugal em suas expansões marítimas, debaixo da autoridade da Igreja Católica, eram:

1) Evangelizar os infiéis que nunca tinham ouvido falar de N. S. Jesus Cristo através do Batismo;

2) Expulsar os mouros daquelas terras, ou pela força ou os prejudicando comercialmente nas rotas;

3) De maneira honrosa estabelecer uma comunicação e comércio com alguma civilização que ali vivessem para benefício do Reino.

De forma que, o 1º objetivo era o principal e o mais importante para o Príncipe, sendo os outros dois, comparados ao primeiro, de menor importância.[1] Vê-se que D. Henrique, não tinha como prioridade o interesse comercial nas descobertas e nas capturas de mouros residentes nas regiões, mas de acordo com o próprio Antão Gonçalves, até 1441, o foco era(Cf. 2, E.): "[...] levar [a D. Henrique] algum idioma desta terra; porque sua intenção neste descobrimento não é de fins comerciais, mas sim de buscar gente desta terra tão remota da Igreja, e dar-lhes o Batismo [...]"[2]

[1] (Crônica do Descobrimento e Conquista de Guiné, Cap. V, pgs. 47-48) 
[2] (J. Barros, Dec. I, Liv. I, Caps.: II, pgs. 16 e 23-25; VI pg. 50; VII pg. 57)

2. ESCOLA DE SAGRES

A grandeza marítima de Portugal tem origem na Escola de Sagres, fundada pelo Infante[3] Dom Henrique, terceiro filho de D. João I (Reinado 1385 - 1433) e de D. Felipa de Lencastre  (Reinado 1387 - 1415)[4]. D. Henrique então, dedicando-se com toda seriedade ao estudo da astronomia, cosmografia e náutica, chamou para sua Escola o espanhol Jaime Ribas[5], cartografo e mestre em náutica, que fabricava cartas e instrumentos de navegação, o maiorquino foi o primeiro a instruir a Escola de navegação do Infante[6].

Como D. Henrique era Governador da Ordem de Cristo[7], tinha à sua disposição muitos recursos financeiros, os quais eram direcionados quase que exclusivamente para os descobrimentos marítimos, na intenção de abrir novos horizontes para a Civilização Cristã.[8]

D. Henrique, com o objetivo de tirar das mãos dos mouros o império marroquino, após entrar em guerra para tomar uma cidade islâmica chamada Ceuta (1415), no Norte da África, ali recolheu dos muçulmanos vencidos diversas informações dos povos da África Ocidental, do deserto do Saara e do país de Guiné, estas constatações seriam preciosas para servirem de base nas primeiras descobertas portuguesas.[9]

Sem demora, D. Henrique começou a mandar dois ou três navios por ano com a ordem de explorar a costa além do "Cabo Não"[10]. Aquele cabo era conhecido assim, pois, por navegações desastradas dos espanhóis, fez com que os portugueses acreditassem que seria impossível passar daquela região. Para se ter noção, tal era o preconceito dos portugueses em relação a esse Cabo, que tinha uma espécie de ditado popular na época que dizia: "Quem passa o "Cabo Não", tornará ou não!".

[3] (Nos reinos da Espanha e de Portugal, este título era atribuído a quem era filho do rei ou da rainha, porém não era herdeiro do trono na linha sucessória)
[4] (Irmã de Henrique IV, que foi rei da Inglaterra de 1399 até 1413)
[5] (Nascido na Ilha de Maiorca, na Espanha, na verdade ele se chamava Jehuda Cresques, de ascendência judaica. Mudou seu nome após se converter ao cristianismo por volta de 1391)
[6] (História Geral do Brasil antes da sua separação e Independência de Portugal, S. V, pg. 62, Varnhagen)
[7] (Ordem religiosa criada pelo rei de Portugal D. Diniz (Reinado 1279 - 1325) para substituir a extinta Ordem dos Templários, da qual herdou todos os bens, e em 1319 foram reconhecidos pelo papa João XXII)
[8] (História do Brasil, Tomo I, Cap. II, 5, P. R. Galante)
[9] (J. Barros, Dec. I, Liv. I, Cap. II, pg. 19; Os Filhos de D. João I, J. P. Oliveira Martins, Cap. II, pg. 64)
[10] (O Cabo Não, consiste atualmente no sul de Marrocos)

3. PRIMEIRAS DESCOBERTAS

A. Cabo Bojador

Superando esta superstição, logo descobriram o Cabo Bojador[11], porém ninguém ousou explorá-la, devido a dificuldades com a profundidade na costa, que, ao que tudo indica, possuía mais ou menos 48 KM de distância do alto mar, com a profundidade de apenas 2 metros, o que impedia os navegantes de desembarcarem na região.

B. Porto Santo (1418)

Ao voltar da expedição de Ceuta, D. Henrique se deparou com João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, que se ofereceram corajosamente ao Infante para explorar além do Cabo Bojador e sem hesitar D. Henrique autorizou a empreitada.

Tendo iniciado sua temida navegação, em certo ponto da viagem, eles foram arrastados por um temporal para o alto mar. Quando, desesperados, achavam que estavam perdidos, o tempo se abriu e [12].
Caravelas de navegações de D. Henrique, com a Cruz da Ordem
de Cristo
logo avistaram uma ilha deserta e lhe deram o nome de Porto Santo

Então, quando voltaram, contaram alegres ao reino sua descoberta, e, após se oferecerem ao Infante, logo obtiveram permissão de povoar a nova ilha. Rapidamente eles partiram em três navios, juntamente com o Fidalgo[13] Bartolomeu Perestrelo.

Entretanto, Perestrelo obteve um imprevisto e não conseguiu permanecer por muito tempo na ilha, pois levou uma criação de coelhos que se tornaram uma praga e devoraram todas as plantações.[14]

C. Ilha da Madeira (1419/20)

João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, que permaneceram na Ilha, decidiram examinar de perto o que parecia ser uma nuvem preta, que eles enxergavam com dificuldade constantemente no horizonte.

Deste modo, descobriram ocasionalmente uma Ilha deserta, que por causa de suas inúmeras árvores, a chamaram de Ilha da Madeira. Ela fora dividida em duas capitanias: a do Funchal para João Gonçalves Zarco e a de Machico para Tristão Vaz Teixeira.

Bartolomeu Perestelo ficou com o Porto Santo, que apesar do seu primeiro contratempo, a colonizou, e conseguiu acabar com a praga dos coelhos.[15]

D. Açores (1431)

Gonçalo Velho[16], a mando do Infante, zarpou em navegação na direção oeste de Portugal, e acabou topando com rochedos que deu o nome de Formigas. No ano seguinte, realizou uma segunda viagem e descobriu uma ilha que a chamou S. Maria, posteriormente descobriu a ilha de S. Miguel, da qual foi o primeiro administrador.

Deram a estas duas ilhas o nome de Açores porque quando chegaram viram ali uma quantidade enorme de milhafres, que pensavam na verdade serem açores.[17] Foram incluídas nesse arquipélago outras ilhas ali descobertas. [18]

E. Outros Descobrimentos

Em 1433 Gil Eanes, navegante nascido na Vila de Lagos[19], foi o primeiro a explorar o Cabo Bojador, e no ano seguinte, visitou novamente a região juntamente com Afonso Gonçalves Baldaia[20]. Passando da região do Cabo Bojador, os exploradores encontraram pegadas humanas e de camelos, mas não descobriram nada e voltaram para o Reino. Em 1436, Gil Eanes junto com Afonso Gonçalves Baldaia descobriram o Rio de Ouro[21]. A região era cercada de lobos marinhos, alguns estimavam que chegavam até cinco mil, o que fez com que eles caçassem o máximo que puderam para levar à Portugal.

No ano de 1441 Antão Gonçalves[22] retornou ao Rio de Ouro por ordem do Infante, para buscar novamente peles e óleo de lobos marinhos. Ali fez o que ordenou D. Henrique e também capturou dois mouros: sendo um homem e uma mulher.

No mesmo ano, estando Antão ainda no Rio de Ouro, recebeu o explorador português Nuno Tristão, que tinha ordens expressas de D. Henrique para explorar além daquela região. Capturaram posteriormente mais alguns nativos da região depois de uma batalha sangrenta em uma aldeia. Entre os capturados estava Adahu, que era um nobre e racionalmente superior aqueles nativos.

Antão já tendo cumprido a sua missão, retornou para Portugal. Nuno Tristão continuou a explorar além da região, conforme tinha ordenado D. Henrique, foi assim que então descobriu o Cabo Branco[23], porém acharam melhor, naquele momento, não explorar aquela terra e voltar ao Reino.[24]

Quando ambos chegam ao Reino com os infiéis, D. Henrique se alegrou, não só pela quantidade de almas que ali estavam para conhecer N. S. Jesus Cristo, mas na esperança de poder encontrar mais almas para salvar, o Infante não pensou em lucros, riquezas ou se quer benefícios econômicos que aquelas pessoas poderiam fazer ao Reino, mas sim, na principal intenção que tinha o Príncipe naqueles descobrimentos, que era a salvação daquelas almas e a propagação da Civilização Cristã.[25]

Em 1443, Nuno Tristão voltou à costa da África Ocidental, seguindo ordens de D. Henrique, onde captura mais 15 mouros e descobre a Ilha das Garças, que possuiu este nome após o navegante ter encontrado inúmeras garças naquela região, ao que tudo indica, porque era época da procriação delas.[26]

[11] (Hoje região no território de Marrocos)
[12] (Atualmente faz parte do arquipélago de Madeira)
[13] (Título da época que significava "filho de algo", o que deduziria que era proprietário de bens)
[14] (J. Barros, Dec. I, Liv. I, Cap. II, pg. 27 e 28)
[15] (História do Brasil, Tomo I, Cap. II, 8, pg. 7, P. R. Galante)
[16] (Hábil cavalheiro da Ordem de Cristo e Navegante de D. Henrique)
[17] (Açores e milhafres são aves de rapina muito parecidas)
[18] (Op. cit., 12, pg. 10)
[19] (Cidade litorânea localizada no Sul de Portugal)
[20] (Navegante e explorador de D. Henrique)
[21] (Região localizada no Norte da África. Atualmente território da Mauritânia.)
[22] (Navegante português e e guarda pessoal de D. Henrique)
[23] (Região do Norte da África, atualmente território da Mauritânia)

[24] (J. Barros Dec. I, Liv. I, Cap. V - VI)
[25] (Crônica do Descobrimento e Conquista de Guiné, Cap. XIV, pgs. 87-88)  
[26] (Monumenta Henricina, vol. VIII, doc. 44, pgs. 78-81)

4. OS ABUSOS E A POSIÇÃO DA IGREJA

Naturalmente, como em toda obra humana, ocorreram abusos nessas primeiras explorações européias, que, apesar da admirável e honrosa primeira e principal intenção de D. Henrique, não deixaram de serem cometidos.

Um dos motivos destes abusos, seria uma espécie de vingança contra o derramamento de sangue cristão pelos mouros, o que não justificaria em si tal projeto desumano que viria a manchar parte da belíssima história das descobertas portuguesas e espanholas.[27]

Logo que chegou ao conhecimento da Igreja, em 1434, Ela se posicionou diante dos abusos dos europeus com os nativos das Ilhas Canárias[28], através da Bula Creator Omnium do Papa Eugênio IV (Pontificado: 1431-1447), na qual ordenava que todos os cristãos, no prazo de 15 dias, após o conhecimento da Bula, restituíssem a liberdade aos indígenas daquele lugar, proibindo também futuramente de prende-los, transferi-los e vende-los, sob pena de excomunhão. A maior preocupação do Santo Padre era a salvação das almas, que com estes gestos, prejudicavam a evangelização dos outros nativos, que, certamente ficariam temerosos de aceitarem se converter diante de tamanho ultraje.[29]

D. Henrique desejando assegurar a posse das conquistas que tivera e de outras que planejava admiravelmente, obteve em 1436, do mesmo Sumo Pontífice, uma bula pela qual o Santo Padre concedeu à Ordem de Cristo todas as terras que foram e seriam descobertas com o fim de, conquistadas, evangelizar os infiéis que ali viviam, desde o Cabo Bojador até a Índia.[30]

Em um intervalo de 2 anos, ao mesmo tempo que a Igreja condenava a escravidão, ela incentivava e parabenizava pelos feitos europeus nas expedições, sempre maternalmente, dirigindo seus filhos para a Lei Suprema da Igreja, que é a salvação das almas. Logo, esta última Bula do Papa mostra claramente que é falsa a afirmação que a Igreja em algum momento endossou a escravidão, pelo fato de apoiar e incentivar as colonizações e descobertas dos portugueses e espanhóis.

[27] (História do Brasil, Tomo I, Cap. II, 9, pg. 7, P. R. Galante)
[28] (Atualmente território da Espanha)
[29] (Monumenta Henricina, vol. V, doc. 52, pgs. 118-123)
[30] (História da América Portuguesa, S. Rocha Pita, Liv. I, 91)