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sábado, 31 de agosto de 2019

Desfazendo falácias sobre os Povos Indígenas do Brasil no Século XVI

OBSERVAÇÃO DO AUTOR

É de extrema importância mostrar ao leitor como REALMENTE viviam os povos indígenas antes da chegada de Pedro Álvares Cabral no Brasil, e no começo do século XVI, para desmentir as fábulas do "nós contra eles" que contam os professores e ditos "intelectuais" brasileiros contemporâneos.

I. CARACTERÍSTICAS COMUNS DAS TRIBOS INDÍGENAS

Lemos frequentemente, e até aprendemos nos ensinos fundamental e médio, que os índios são os "verdadeiros brasileiros", que "viviam em paz, cultivando e tratando bem a natureza" e que "as terras brasileiras eram propriedade deles". Essas propriedades teriam sido então saqueadas e a "cultura indígena" subjugada pela "cultura do homem branco", incluindo costumes, língua, religião e governo.

Estes índios tinham completa falta de conhecimento do uso do ferro, utilizavam instrumentos feitos de pedra polida e de madeira, não usavam de qualquer forma de comércio ou escambo, pintavam seus corpos de diversas cores e conheciam o uso da cerâmica. 

Compunham canções monótonas ou tristes, dançavam ou em círculos ou em filas, realizavam banquetes em que bebiam e comiam em excesso, tinham desprezo pela morte, indiferença pelo sofrimento do outro e se mutilavam constantemente de diversas formas. 

Produziam esteiras, redes, cestos e anzóis de espinhos e de ossos, pescavam também com o uso de dardos e recolhiam as ostras que ficavam nas costas das praias. Faziam farinha tanto com mandioca, quanto com broto de samambaia e utilizavam ossos humanos para enfeitar suas aldeias.

As aldeias se chamavam "tabas", eram cercadas de pau a pique (caiçara), com uma única entrada. Dentro das tabas, se encontravam algumas "ocas", dispostas circularmente em


torno de uma praça (ocara) e cobertos com folhas de palmeiras. Nesse rancho, cada família armava suas redes e acendia seu fogo sem chaminé. Geralmente, as mudanças de localização das tabas, eram feitas de quatro em quatro anos, e resolviam-se em conselho da tribo. Os motivos principais de não permanecerem no mesmo local eram: o apodrecimento das madeiras das ocas, das folhas de palmeiras do teto, que já não cobriam as ocas totalmente, a ausência dos animais na localidade, devido a caça constante, e, se a tribo cultivava agricultura, por não terem conhecimento suficiente para conservar, acabavam desmatando grandes terras, de modo que chegava a um ponto em que eles precisavam mudar de região. As tabas abandonadas denominavam-se "tapera", ou, em tupi, "taba uêra", que significam "aldeia abandonada".

ANTROPOFAGIA

A maioria comia carne humana por rivalidade das tribos, principalmente após as guerras que travavam, com exceção dos Tapuias e dos Goitacases, que realmente caçavam seres humanos e dos Carijós e Tapuias do Sul, que não comiam de forma nenhuma carne humana.



Historicamente se constata que este "apetite antropófago", que era para eles como "o néctar dos deuses", era o primeiro e principal motivo de eles iniciarem tantos massacres sucessivos contra seus povos inimigos, depois, outro motivo de guerra era o domínio dos litorais, que serviam para pesca e era mais abundante também para a caça.


"Mãozinha de um Tapuia"

Certa vez um jesuíta, tendo chegado a uma das aldeias dos sertões brasileiros, achou uma índia muito velha, que demonstrava que já estava em seus últimos dias de vida. Dando-lhe a Unção dos Enfermos, viu que a idosa estava com fome, então o padre perguntou à ela se não queria que buscasse algo especial para que ela pudesse comer. Foi então que a velha índia respondeu: "nada quero desta vida, tudo me aborrece, só uma coisa me poderia tirar agora essa fome. Ah se eu tivesse agora uma mãozinha de um menino Tapuia, de pouca idade, delicadinha, e pudesse chupar aqueles ossinhos, então me satisfaria. Porém, coitada de mim, não tenho quem vá buscar um destes para mim."

É evidente, nós sabemos que, devido os abusos de colonizadores, a população indígena sofreu grandes quedas, por causa das escravidões, dos extermínios justos ou injustos, das emigrações que foram obrigados a fazer e das sucessivas guerras em que derramaram o seu sangue. Entretanto, pelos números[1] atualizados que temos hoje, nós sabemos que, no século XVI, antes mesmo da chegada dos portugueses, a população indígena não chegou a povoar nem 1 índio por quilômetro quadrado[2] do território brasileiro e, provavelmente, estava em contínua queda, principalmente por causa das sucessivas guerras de extermínio que mantinham entre si, o que, além de impedir o crescimento populacional, não permitia nem, ao menos, a constância demográfica deles, ou um crescimento ainda que moderado.

Ademais, era perfeitamente comum as próprias famílias que compunham as tribos criarem inimizades entre si, se separarem e estenderem esse ódio mútuo por gerações a frente. O próprio fato dos indígenas, quase sempre, se auto denominarem "Tupinambás" e falarem a língua Tupi, denota que esses povos eram descendentes de um só povo e que, deste povo, foram criando diversas dissidências, a ponto de existirem tantos povos, mas com características gerais tão semelhantes. Por isso mesmo, não se pode dizer que o índio era "patriota" ou que tinha qualquer noção de "corporativismo indígena", nem antes e nem durante a colonização isso aconteceu. 

Em geral, eram panteístas, e tinham como objeto de culto elementos da natureza como o sol e a lua. Porém, tinham alguns personagens exclusivos de culto tais como "caipora", "curupira", entre outros.

[1](https://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/historia-indigena/os-numeros-da-populacao-indigena.html)
[2] (A cifra que chegamos pelo cálculo do número de índios que tínhamos no Séc. XVI pela Área do território brasileiro é de 0,28 índio/km²)

II. PRINCIPAIS TRIBOS DO BRASIL E SUAS RESPECTIVAS CARACTERÍSTICAS 

A separação dos povos indígenas foi feita naturalmente entre tribos mansas e amigáveis em relação aos portugueses, essas tinham alguns traços de civilidade e hierarquia e falavam a língua Tupi. Já as outras tribos, eram altamente ferozes, repulsivas e agressivas, não só com os portugueses, mas também com outras tribos, demonstravam características bárbaras, selvagens e falavam um idioma desconhecido por todos. As primeiras deixavam-se ser instruídas e civilizadas pelos portugueses, as outras não deixavam ser instruídas e eram muito violentas. As tribos que compunham o Brasil eram fatais inimigas umas das outras, quanto mais próximas e vizinhas eram, mais confrontos e ódio mortal  tinham umas com as outras.

1. GUAIANASES

Ocupavam desde Angra dos Reis (RJ) até o Rio de Cananeia (SP). Eram vizinhos dos Carijós e dos Tamoios.

Eram mansos, honestos, inocentes, amigáveis e recebiam bem as instruções dos portugueses. Se alimentavam da caça, pescaria e da colheita de frutas.

Não viviam em tabas, mas em cavernas subterrâneas, onde conseguiam se manter aquecidos com o fogo aceso dia e noite. Não fabricavam e nem conheciam a rede, dormiam no chão sobre peles e camas de folhas.

Se defendiam constantemente dos ataques feitos pelos Tamoios, que tentavam tomar suas terras. Não matavam índios de outros povos, a não ser que estivessem em guerra, no entanto, dos prisioneiros dessas batalhas, faziam-se escravos uns dos outros.

RITUAIS DE CRUELDADE

Quando algum deles morriam, eles enforcavam alguns amigos ou parentes do morto, pessoas do mesmo sexo e, quando era possível, da mesma idade do falecido, pois acreditavam eles que no "plano espiritual", essas pessoas o fariam companhia. Caso faltassem vítimas voluntárias para este costume diabólico, completava-se o número necessário a força. Se o morto era um dos chefes, sacrificavam-se seus vassalos no lugar de seus parentes. 

Outro costume cruel e exclusivo deles, era quando os índios que se tornavam idosos, ou contraíam uma doença grave ou tinham o desejo de suicidar-se e eram enterrados vivos. Após o índio ser coberto de resina de árvore, depois com penas coloridas de diversas aves, era aberta uma cova e colocada um jarro dentro. Antes de se suicidar, toda a tribo festejava com ele. Posteriormente, ele entrava dentro deste jarro, era coberto por barro pesado e depois completava a cova com areia.

2. GOITACASES

Habitavam mais ao norte do Rio de Janeiro, às margens do Rio Paraíba do Sul (RJ), mais precisamente na cidade de Campos, que até hoje se chama "Campo dos Goitacases" (RJ). Eram vizinhos dos Tabajaras, dos Tamoios e dos Tupiniquins. 

Os Goitacases eram divididos em três tribos: os goitacá-mopis, goitacá-guaçus e goitacá-jacoritós, que guerreavam constantemente entre si, e preferiam comer a carne uns dos outros com mais frequência do que caçar animais silvestres.

Tinham a pele mais clara, cultivavam legumes, caçavam e pescavam. Eram nadadores muito valentes, caçavam tubarões para comer e aproveitavam os dentes para afiar as flechas. Não tinham cama e dormiam no chão sobre folhas.

3. PAPANASES

Estabelecidos entre Espirito Santo e Porto Seguro (BA), eram vizinhos dos Tupiniquins e Goitacases, e acabaram migrando para o interior, depois de serem expulsos pelas tribos vizinhas. 

Caçavam, pescavam e comiam frutas. Dormiam no chão em cima de folhas. 

Se um deles cometesse homicídio, ainda que não intencional, era entregue aos parentes da vítima, e, na presença da família de ambos, era imediatamente estrangulado e enterrado. No ato da execução, todos choravam muito e depois comiam e bebiam juntos por muitos dias, afim de criarem laços de amizade. Caso o assassino fugisse, o filho, a filha ou o parente mais próximo dele era feito escravo pela família da vítima.

4. TUPINIQUINS

Habitavam as costas de Porto Seguro (BA) e Ilhéus (BA), vizinhos dos Tupinaes, que se localizavam mais ao interior. No início resistiram aos portugueses e entraram muitas vezes em guerra contra eles. Porém, passado algum tempo, fizeram as pazes com os portugueses e se tornaram os seus mais fiéis, valentes e leais parceiros entre os indígenas.

Praticavam a agricultura plantando mandioca e outros legumes. Ajudaram na guerra contra os Aimoré, que saíram do interior em direção à costa para tomá-la. 

5. AIMORÉS/BOTOCUDOS/TAPUIAS

Procuravam habitar mais o interior, nos sertões do Brasil, principalmente após serem expulsos da costa pelos Tupinambás. Não tinham como idioma o Tupi e eram chamados pelos próprios indígenas de Tapuias, que significa em síntese "inimigos" ou "contrários". Eram inimigos de todas as demais tribos vizinhas ou não-vizinhas, pois eram traiçoeiros, desonestos e altamente bárbaros. 

Tinham o costume de comer carne humana, como se comessem carne de qualquer outro animal, diferente das outras tribos que comiam por vingança e por ocasião de rivalidades antigas de tribos. Entre as próprias tribos Tapuias havia o costume de entrar em guerra, somente para satisfazer o "apetite" de comer carne humana. Viviam procurando alguém para assassinar e comer sua carne, nunca frente a frente, mas sempre escondidos, planejando armadilhas traiçoeiras a qualquer homem que passasse pelo seu caminho, e se alguém os visse, corriam logo para se esconder. 

Não plantavam, nem cultivavam nada, colhiam frutas, caçavam animais e comiam sua carne crua, ou, se tivesse fogo, mal-passada. Quando eram presos, se recusavam a comer e acabavam morrendo de fome. 

Eram guerreiros fantásticos, de estatura muito grande, conhecidos por nunca errarem uma flechada e corredores fabulosos, no entanto, não sabiam nadar de nenhum modo, nem usavam canoa ou jangada. Constantemente faziam as pazes com os portugueses, mas ou por deslealdade ou por malícia, tratavam de logo trair o homem branco. As capitanias de Ilhéus e Porto Seguro sofreram muito com os ataques dos Aimorés, pois eles matavam indiscriminadamente escravos, portugueses e todo tipo de gente que viam pela frente. As pessoas não saíam a noite nessa região, pois era muito perigoso, com grande chance de serem mortos por Aimorés. Em vinte e cinco anos eles mataram 300 portugueses e 3.000 escravos naquela região. Contava-se na época que para fugir deles, não adiantava correr, pois logo eles conseguiam alcançar, mas, precisava-se fugir para dentro do mar ou rio, onde eles não ousavam entrar.

Cada tribo deles não passava de 50 integrantes, eram como gafanhotos devastando tudo por onde passavam, fazendas, florestas e pessoas, todos os dias, pois não ficavam nem um dia se quer em um local e não viviam em tabas como as outras tribos. Não usavam nenhum tipo de traje, dormiam no chão sobre folhas e quando chovia, tratavam de procurar ficar debaixo de uma árvore, juntando mais folhas em cima para se protegerem da chuva. 

COSTUME NÔMADE

À véspera do dia, o Superior da tribo reunia os seus muitos feiticeiros, e adivinhadores, e, feito o conselho, perguntava, aonde iam se estabelecer no dia seguinte, o que iam fazer nele e de que maneira iriam caçar. Então o oráculo determinava a forma como eles iam partir. Antes que se preparassem para se mudar, iam todos juntos se lavar em algum rio ou fonte de água, feito isso, esfregavam em seus corpos lodo ou terra, e se lavavam uma segunda vez. Depois que saíam da água, acendiam uma fogueira, e junto à ela, iam ferindo seus corpos com dentes de animal em diversas partes, até sair bastante sangue, pois eles acreditavam que, com isso, iriam evitar o cansaço na viagem até o outro lugar. 

Quando chegavam ao lugar destinado por seus feiticeiros, os homens mais novos iam no mato, cortavam ramos e faziam barracas toscas, e pequenas, chamadas, como eles, de Tapuias, e logo entravam nelas mulheres, crianças e tudo o que levavam consigo. Feito esta "habitação", que iria durar um dia, os homens iam à caça e buscavam mel. As mulheres mais velhas buscavam raízes de ervas e frutas. As mais novas ficavam na cabana, e iam preparando as coisas para a sobrevivência de um dia naquele lugar. No tempo livre cantavam, dançavam, pulavam, e lutavam, e assim iam levando a vida. No período da tarde, o Superior voltava a consultar seus feiticeiros sobre o dia seguinte e assim era todos os dias dessas tribos tapuias. 

6. AMOIPIRAS

Viviam nas margens do Rio S. Francisco. Tinham a mesma linguagem e costumes dos Tupinambás. 

Cortavam árvores com ferramentas de pedras e desmatavam para construírem suas aldeias. Para plantar mandioca, usavam para cavar a terra uma ferramenta pontiaguda feita de madeira. Pescavam com espinhos tortos, que serviam como anzóis e caçavam com flechas. 

Eram vizinhos dos Ubirajaras, com quem constantemente travavam guerras, e comiam a carne uns dos outros, sem perdoar a vida de nenhum deles, até se por a caso se encontrassem alguma vez.

7. CAETÉS

Ocupavam a costa de Pernambuco até o Rio S. Francisco. Travavam constantemente guerras, principalmente contra os Potiguares. 

Para atravessarem o Rio, fabricavam canoas (juncadas ou jangadas) de uma espécie de palha comprida, que uniam em molhos, muito apertada com cipós e varas fortes de cana. Eram tão grandes, que podiam levar dez ou doze pessoas. Deste modo, normalmente também atacavam os Tupinambás do outro lado rio.

No sertão, habitavam próximos aos Tapuias, com os quais também faziam guerras e, se venciam, se alimentavam de todos os corpos.

Foram grandes opositores dos primeiros colonos. Tramavam armadilhas para matar e comer a carne de quem aparecesse próximo às suas habitações, como aconteceu com o primeiro Bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha e com os pobres homens, mulheres e crianças que cruzaram seu caminho. 

O MASSACRE

Precisando retornar à Portugal, D. Pedro Fernandes Sardinha embarcou nesta terrível viagem com diversas famílias, incluindo mulheres e crianças. No décimo quarto dia navegando, eles sofreram uma grande tempestade, com trovões e relâmpagos em alto mar e acabaram se perdendo e depois naufragando.

Uns a nado, outros embarcados em batéis, foram amigavelmente recebidos pelos Caetés na costa. Estes, fingindo estarem compadecidos da situação deles, levou-os até a aldeia, acendeu a fogueira, trouxeram mantimentos e cuidaram dos que se feriram. Entretanto, os portugueses ficaram muito desconfiados com aquela tal hospitalidade. Olhavam ao redor e viam diversos ossos humanos e caveiras espalhadas pela aldeia.

Homenagem a D. Pedro Fernandes Sardinha em Salvador


Eram muitos caetés comparados aos portugueses, que eram formados em sua maioria por mulheres e crianças e estavam desarmados.

Por fim, depois de se despedirem, os índios mostraram àquelas pobres pessoas, o caminho de volta, direcionando à armadilha preparada, e, chegando eles próximos a um rio, se depararam com índios selvagens e ferozes que estavam escondidos na mata. Mataram alguns a flechadas e outros carregaram vivos, como se fosse qualquer animal que tivessem caçado. Não tiveram piedade, nem ao menos das crianças, as quais eles arrancavam os braços com um penedo e as que mais choravam eles abriam a cabeça ou o peito com facões de madeira.

O Bispo D. Pedro, que tinha atravessado o rio em uma balsa, vendo aquela carnificina e ouvindo os gritos de selvageria daqueles bárbaros e os de desespero das pessoas, quando estendeu sua cabeça para pedir ajuda à Nosso Senhor, para saber o que fazer, avistou diversos selvagens nas margens do rio, de modo que o prelado começou a acenar, para que eles entendessem que ele vinha em sinal de submissão, para ajudá-los, no entanto, ao se aproximarem, eles derem um golpe com uma maça, arma brutal usada por eles, em D. Pedro, o que fez com que abrisse sua cabeça ao meio. Esses nativos diabólicos levaram o prelado para aldeia, o devoraram e guardaram seus ossos para se gabarem de tal desumanidade.

8. CARIJÓS

Habitavam as costas próximas de S. Vicente (SP), que iam desde o Rio Cananeia (SP) até o Rio dos Patos (PR). Pelos lados do Rio Cananeia, eram vizinhos dos Guaianases pelos do Rio dos Patos eram próximos dos Tapuias do Sul.

Não tinham inclinação para guerra, porém travavam algumas guerras contra os Guaianases, no entanto, quando viam que estavam em desvantagem, ambos se escondiam no mato, pois tanto uns, quanto os outros, não sabiam caminhar pelas matas.

Pescavam, caçavam, cultivavam algumas lavouras e plantavam mandioca. Não comiam de nenhum modo carne humana e nem assassinava os brancos.

Viviam em casas bem cobertas e vestiam couros de animais que matavam, devido ao frio que fazia naquela região.

9. TAMOIOS

Habitavam as costas do Rio de Janeiro ocupando entre Angra dos Reis (RJ), Cabo Frio (RJ) e Cabo de S. Tomé (RJ). 

Se uniram aos franceses, na chamada "Confederação dos Tamoios". Praticavam comércio constante com os franceses, que os armavam, fortificavam, enriqueciam e também lutavam lado a lado contra os portugueses.

Eram inimigos de todas as outras tribos, com exceção dos Tupinambás, de quem se diziam serem parentes. Tinham como rivais principais os Goitacases, com quem faziam fronteira no Espírito Santo e os Guaianases, nas proximidades da capitania de S. Vicente. Em todas as guerras, se venciam, comiam com grande gosto a carne dos inimigos.

10. TUPINAMBÁS

Era a tribo que mais povoava o Brasil, ocupando Estados como: Pará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e nas regiões de Tamaracá e Rio S. Francisco. 

Disputavam com os Tobaiaras o título de primeiro povo das costas brasileiras. De fato, como afirmam os cronistas, as demais tribos tinham muitas similaridades com os costumes e a língua dos Tupinambás.

Tinham tabas e ocas mais bem confeccionadas que todos os outros povos. Foram grandes guerreiros e se defendiam continuamente dos ataques dos Caetés.

Eram ótimos agricultores. Foram eles que alegaram ter conhecido S. Tomé, e que este teria ensinado o plantio de mandioca a eles.

11. TOBAIARAS/TABAJARAS

Se denominavam os mais antigos habitantes das costas do Brasil. Aqui paira um entrevero sobre o nome desta tribo, pois há alguns que afirmem que em tupi "TOBA" (rosto/face) "IARA" (senhor), signifique "Senhor da Face", pois eles chamavam as costas das praias de "Face" e há outros que alegam significar "TABA" (aldeia) "IARA" (senhor), ou seja, "Senhor da Aldeia" e, por último, há alguns que dizem ser "TOBAÎARA", que significa "Inimigos". Sem entrar em tal disputa linguística, podemos afirmar que tiveram grande importância, tanto para a história dos índios, quanto para os portugueses.

Foram os primeiros a se aliarem com o homem branco, se dispuseram prontamente à se converter ao cristianismo e ajudaram os portugueses em grandes batalhas contra outros indígenas selvagens, principalmente contra os Potiguares, que já eram antigos inimigos.  

12. POTIGUARES

Ocuparam os litorais do Rio Grande do Norte até o Rio da Paraíba (PB) e Pernambuco.
Eram reconhecidos como grandes experientes nas batalhas. Guerreavam ordinariamente contra todos que detinham os litorais do Brasil, tais como contra os Tobaiaras e Caetés pelo domínio de Pernambuco e nas proximidades de Jaguaribe (CE), eram vizinhos dos Tapuias e, em certos tempos se aliavam contra outros Tapuias vindos do Sertão, e em outros desfaziam as alianças e voltavam a se matar.

Foram grandes devoradores do homem branco nas capitanias, incluindo os filhos do grande historiador português João de Barros. Fizeram grandes estragos contra os portugueses, com a ajuda e influência dos franceses, principalmente em Tamaracá (PE), Paraíba e Rio Grande do Norte.

13. TAPUIAS DO SUL

Viviam nas regiões da capitania de S. Vicente, desde as margens do Rio dos Patos (PR) até o início do Rio da Prata (PR). Viviam mais no interior, porém iam para a costa para pescar.

Não tinham aldeia, nem cultivavam a agricultura. Devido ao frio que fazia na região, para dormirem, faziam cobertores dos couros de animais que matavam para comer, tais como veados e corças.

Eram Tapuias totalmente diferentes dos Aimorés, pois eram gentis, de temperamento amigável, não comiam carne humana e nem atacavam o homem branco que mantinha contato com eles. Os moradores da capitania mantinham um comércio de escravos com estes índios em troca de porcos, galinhas e outras coisas. Entre os maiores comerciantes de escravos indígenas da capitania, estava Pedro Corrêa, que posteriormente, foi convencido pelo Padre Leonardo Nunes a libertar os índios, e, depois que se tornou cristão, decidiu entrar na Ordem jesuíta e passou a liderar a catequese de índios na Capitania de S. Vicente e também praticou grande caridade com os índios.

Tinham um costume macabro de cortar os dedos na primeira junta quando morriam um parente próximo, segundo eles, para chorarem com mais profundidade a perda do familiar, de tal modo que, se encontravam alguns membros da tribo, mais velhos, que só tinham as mãos, sem nenhum dedo. 

Esta tribo de Tapuias, como descrevem os documentos históricos portugueses, que viviam no Sul do Brasil, mostra como é falacioso o argumento de "contadores de lorotas", de que os portugueses colocaram o nome das tribos que não colaboravam com a colonização de "Tapuias", de forma pejorativa, como se não fossem assim chamados desde sempre pelas próprias tribos Tupis, por não falarem a mesma língua e manterem costumes totalmente selvagens e bárbaros, até mesmo para os indígenas.



BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA

Varnhagen, História Geral do Brasil antes da sua separação e Independência de Portugal, T. I, S. II, pg. 13-17; S. IV, pgs. 54-55; S. XVIII, pgs. 292-293, 2ª ed., 1877

Antônio A. P. Coruja, Lições da História do Brasil, L. I, pgs. 9-11, 1877; 

P. Rafael Galanti, Compêndio da História do Brasil, E. I, Cap. III, pgs. 97; 102-103; 112; 120-121; 128-130, 2ª ed., 1911;

P. Simão de Vasconcellos, Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, Vol. I, L. I, pgs. 86-89; 100-101; L. II, pgs. 122-125, 1865;

Fr. Antônio de Santa Maria Jaboatão, Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil, Vol. I, P. I, dig. II, est. I, pgs. 9-35, 1858;

Gabriel S. de Sousa, Tratado Descritivo do Brasil, Cap. XXXII; CLXXXI; pgs. 47-49; 313-314, 1587

A. D. Cristovão de Moura, Coleção de notícias para a história e geografia das nações ultramarinas que vivem nos domínios portugueses, ou que são vizinhas, Atas da Academia Real das Ciências, T. III, P. I, Cap. LXXII, pg. 92-93, 1825

sábado, 24 de agosto de 2019

O Caminho das Índias

1. TRATADO DE TORDESILHAS

Tendo a Ordem de Cristo, do Reino de Portugal, em 1436, recebido da Igreja uma autorização de possuir todas as terras desde o Cabo Bojador até as Índias, descobertas e a descobrir, quando Colombo, acidentalmente após um temporal, desembarca em Lisboa e D. João II vê os indígenas que ali estavam, causa grande confusão, pois o Rei achou que a Espanha estava descumprindo a ordem da Igreja em relação à "Índia", nem eles mesmos sabiam que se tratava de um novo continente.

Então, em 1493, o Reino da Espanha logo pediu a confirmação daquelas descobertas para a Igreja, sendo Ela, na época, árbitra suprema dos negócios entre reinos cristãos. O Papa Alexandre VI não hesitou em conceder o que era pedido, no entanto, através de uma Bula chamada "Inter Caetera", para evitar dissenções entre os reinos, traçou uma linha imaginária desde o Polo Norte até o Polo Sul do Globo terrestre, passando a cem léguas da Ilha dos Açores e de Cabo Verde, autorizando por este documento aos soberanos espanhóis tudo o que já se tinha descoberto e se viesse a descobrir a Oeste desta linha, e à Portugal tudo ao Oriente da linha, com tanto que não tivesse sido ocupado por nenhum príncipe cristão antes do dia do Natal neste mesmo ano.

Porém, D. João II, ressentido por estarem subvertendo a ordem de sucessivos papas, que confirmavam a Bula de 1436 do Papa Eugênio IV, intercedeu à Cúria Romana e ao Reino da Espanha, porém não obteve sucesso. 

O único jeito do Rei de Portugal resolver a suposta "injustiça" era preparando uma guerra contra reino de Castela. D. João II começou então os preparativos para entrar em guerra contra a Espanha, entretanto, sabendo deste acontecimento, o Rei Fernando de Castela tratou de mandar embaixadores para resolverem de forma pacífica com Portugal, por mais que, para isso, cedessem parte do território autorizado pelo Papa. 

Foi então que, no dia 7 de junho de 1494 foi assinado na Cidade de Tordesilhas (Espanha), um acordo entre o Reino de Portugal e de Castela, onde o território de Portugal se acrescentaria mais duzentos e setenta léguas, totalizando trezentos e setenta léguas a Oeste de Cabo Verde e Açores.[1] 

[1] (J. de Vasconcelos, Datas Célebres e Fatos Históricos do Brasil; P. R. Galanti, Compêndio da História do Brasil)

2. VASCO DA GAMA


Vasco da Gama
Subindo ao trono em 1495 o Rei D. Manuel (Reinado: 1495 - 1521), querendo continuar o trabalho missionário de seu tio, o Infante D. Henrique, de expansão da Civilização Cristã, contra os Mouros e infiéis, e para honra da Igreja Romana e o Reino de Portugal, decide logo mandar uma expedição para descobrir o tão sonhado caminho das Índias.[2]

Em 1497, o Rei confiou a Vasco da Gama, nobre e fidalgo português, a empreitada de descobrir o caminho das Índias Orientais através dos mares. 

No dia 8 de julho de 1497, na Capela de Nossa Senhora da Invocação, em Belém, Vasco da Gama e os outros capitães, juntos com toda a população da Cidade, assistiram a uma Missa, fizeram uma procissão acompanhada de uma ladainha, que os Sacerdotes iam cantando e receberam uma confissão geral, absolvendo toda a tripulação daquela viagem.

A frota era composta por aproximadamente 170 pessoas em três navios chamados: S. Gabriel, S. Rafael e Berrío, o primeiro sendo comandado por Vasco da Gama e o segundo por seu irmão Paulo da Gama.[3]

[2] (Sobre a razão do "sonho" de se descobrir o Caminho das Índias Orientais, é necessário relembrar, como foi feito já anteriormente em nosso artigo, o objetivo das Expansões Marítimas iniciadas pelo Infante D. Henrique. É constantemente ensinado por historiadores contemporâneos e "professores" de história do Ensino Médio e Fundamental que o objetivo principal das Expansões eram as riquezas que aquelas regiões poderiam oferecer à Portugal, o que já sabemos que não condiz com a verdade.) 
[3] (J. de Barros, Dec. I, liv. IV, Cap. II)

3. A VIAGEM ATÉ CALECUT

Após cinco meses de navegação, afim de observar a altura do sol, pois assim era a logística da viagem, Vasco da Gama desembarcou na Baía de S. Helena[4]. Em 1498 aportou em Moçambique, onde vivia um povo muçulmano. O navegante então recebeu do Xeque[5] de do país dois guias, designados a auxiliar as frotas para chegar até a Índia. Entretanto, ambos fugiram, de modo que foram substituídos por outro guia, o qual, julgou o chefe daquele povoado, conhecer mais o caminho até a Índia. 

No entanto, este guia, mal intencionado ou por orientações do Xeque ou por seu próprio ódio contra os cristãos, levava toda a frota para uma armadilha na Cidade de Quiloa[6], mentindo que aquela região era povoada por cristãos, quando, ao contrário, era tomada por mouros. Contudo, como que por um milagre de Nosso Senhor, uma tempestade tomou o caminho e os desviou para longe da costa. No dia sete de abril, chegaram próximos à uma cidade chamada Moçamba[7], que, da mesma forma, o Mouro informou que ali haviam cristãos e indianos. Toda via, mais uma vez a Providência Divina livrou os portugueses de mais uma armadilha que aqueles muçulmanos ali lhes preparavam.

Tendo o guia mouro fugido, e eles capturado uma embarcação com treze mouros, com a intenção de algum deles os orientar para chegar até a Índia, os navegantes chegaram até a cidade de Melinde[8], região onde havia muitos mercadores de especiarias da Índia, os quais poderiam ajudá-los a chegar em Calecut.

Deste modo retratou o poeta Luís de Camões da negociação entre os navegantes e o Rei de Melinde: 

"Como na terra ao Rei se apresentasse,
Com estilo que Palas lhe ensinava,
Estas palavras tais falando orava: [...] 
«Não somos roubadores que, passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vão matando,
Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
Mas, da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da Índia, grande e rica, por mandado
De um Rei que temos, alto e sublimado.»[...]
E com risonha vista e ledo aspeito,
Responde ao embaixador, que tanto estima:
- «Toda a suspeita má tirai do peito,
Nenhum frio temor em vós se imprima,
Que vosso preço e obras são de jeito
Para vós ter o mundo em muita estima;
E quem vos fez molesto tratamento
Não pode ter subido pensamento.[...]
«Porém, como a luz crástina chegada
Ao mundo for, em minhas almadias
Eu irei visitar a forte armada,
Que ver tanto desejo há tantos dias.
E, se vier do mar desbaratada
Do furioso vento e longas vias,
Aqui terá de limpos pensamentos
Piloto, munições e mantimentos.»[...]"[9] 

Assim, estabeleceu a paz com aquele reino e conseguiu um piloto até Calecut.[10] 

[4] (Atualmente território da África do Sul)
[5] (Autoridade islâmica)
[6] (Atualmente território da Tanzânia)
[7] (Atualmente território da Quênia)
[8] (Atualmente território da Quênia)
[9] (L. de Camões, Os Lusíadas, Canto II)
[10] (J. de Barros, op. cit., Cap. IV)

3. CALECUT

Finalmente chegaram em 1498 em nas Índias Orientais. Naquela época, os habitantes de Calecut eram pagãos e mouros, principalmente naturais de Meca e Cairo, devido ao grande comércio de especiarias presente naquela região.

Os portugueses foram muito bem recebidos pelo Samorim de Calecut, o que equivaleria a Imperador em nossos conhecimentos ocidentais, o qual elogiou constantemente Vasco da Gama, como homem prudente, de boa fé e ótimo negociador.

Vasco da Gama perante o Samorim de Calecut


Entretanto, os Mouros que lá viviam, tantos os nascidos, quanto os estrangeiros, que eram senhores do comércio da cidade, percebendo a aproximação do Samorim com os portugueses, trataram logo de envenena-lo com falsas histórias e até astrologia para difamar a frota cristã. 

Com medo de perder o monopólio comercial dos países mouros, que lhes dava segurança comercial, vassalos, além de proximidade geográfica, de modo contrário dos portugueses que precisavam de meses para chegar até ali, o Samorim decidiu por não fechar acordo com eles, e os despediu.[11] 

[11] (P. R. Galanti, op. cit., pg. 24; J. de Barros, op. cit., Cap. IX)

4. VOLTA À PORTUGAL

Saíram então de Calecut e retornaram à Melinde em janeiro de 1499, onde o Rei mandou um embaixador até D. Manuel.

Na viagem de retorno acabaram perdendo o navio S. Rafael e faleceu também, como já estava doente, seu irmão, Paulo da Gama.

Antes de chegar em Lisboa, em 29 de agosto de 99, Vasco da Gama se dirigiu à Capela de Nossa Senhora da Invocação, para agradecer à Nosso Senhor por sua feliz viagem.

Foi recebido pelo Rei e pelo povo, com grande honra e festa. Recebeu o título de Dom, de conde da Vidigueira, e de Almirante dos mares da Índia, juntamente com a renda de trezentos mil réis anuais, e outros privilégios estimados.[12] 

[12] (P. R. Galanti, op. cit.)

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Constantino, o Grande

1. A BATALHA DA PONTE MÍLVIA

Após a declaração de guerra de Magêncio, Constantino avançou contra as suas tropas em direção a Roma.

Segundo os historiadores Eusébio de Cesaréia (265 - 339) e Lactâncio (250 - 325), ambos afirmam que Constantino viu em sonho os símbolos[1] que deveriam ser usados por seu exército para vencer a guerra. Conta o historiador Zósimos (século V) que antes da batalha Magêncio se refugiou no seu castelo para consultar oráculos e videntes, e realizar sacrifícios aos deuses pagãos.[2]

Batalha da Ponte Mílvia
Constantino marcou em seus escudos com a Cruz de Cristo e avançou contra o exército de Magêncio. Quando estavam no embate, se encontrava Magêncio junto com seu exército na Ponte Mílvia, sob o Rio Tibre, que ele mesmo construiu para guerra, no entanto a ponte não aguentou o peso e ruiu, fazendo com que o tirano se afogasse junto com suas tropas.[3]

[1] (Alguns historiadores secundários interpretam Lactâncio afirmando que Constantino teria marcado seus escudos com as letras gregas "X" e "P", que juntas produziam um monograma formando o nome de Cristo)
[2] (Lactâncio, De Morte Persecutorum, 43)
[3] (Zosimus, Nova História)

2. O GOVERNO DE CONSTANTINO

Após a derrota de Magêncio, Constantino acabou por selar a paz com Licínio, por ter ajudado na guerra.

Licínio ficou então como "Augusto" do Oriente em 312, porém se tornou inimigo cruel dos cristãos, Constantino, então protegendo os cristãos, foi a guerra contra Licínio, que acabou se rendendo em 314. Entretanto, Licínio declarou guerra uma segunda vez, foi derrotado em Tessalônica[4] e posteriormente se enforcou.

Constantino, apesar de ter sido influenciado por sua mãe, S. Helena (250 - 330) não se declarou cristão a princípio, nem declarou esta como a religião do Império, porém, protegeu o cristianismo e reconheceu aos cristãos, através do chamado Edito de Milão (313) o direito de culto público, e também, o direito da Igreja Católica possuir terras, de manter autonomia sem interferência do Império em suas leis e de acolher em suas igrejas criminosos e escravos.

Adotou também políticas de Estado vindas da moral cristã, tais como: a proibição da escravidão, a proibição de vender e/ou matar os filhos, seja dentro do ventre da mãe[5] ou fora, auxílio estatal às famílias pobres que não conseguissem criar seus filhos, proibição da crucificação, combates dos gladiadores, etc..[6]

[4] (Atualmente território da Grécia)
[5] (Segundo os costumes da civilização da época, a mulher que não quisesse ter seu filho poderia tomar venenos abortivos que matassem seu filho dentro do seu ventre ainda.)
[6] (J. J. da Rocha, Compêndio da História Universal, Vol. I, Cap. XXXVIII, pg. 185; P. R. Galante, Compêndio da História Universal, "História Romana", P. III, Ep. V, 156)

3. PRIMEIRO CONCÍLIO DE NICÉIA

Surgiu neste meio tempo um diácono de Alexandria chamado Ário (250 - 336), que afirmava hereticamente que N. S. não era Deus, ou seja, negava a divindade de Jesus Cristo. Vendo tamanha confusão causada por essa heresia no Oriente, o Imperador Constantino convoca em 325 o chamado I Concílio de Nicéia, onde propõe para a Igreja resolver o embate que havia até então entre S. Alexandre (250 - 326) que defendia a divindade de Jesus e Ário que negava.

No Concílio estavam presentes 318 padres, que decidiram: excomungar Ário, o celibato dos padres, a data da Páscoa, e a hierarquia da Igreja, estabelecendo patriarcas, arcebispos, bispos diocesanos nas capitais e províncias, presbíteros, diáconos e subdiáconos encarregados de visitar os enfermos e as ordens menores dos acólitos, exorcistas, leitores e porteiros e principalmente confirmando a Primazia do Bispo de Roma como sucessor de S. Pedro e chefe da Igreja.
Concílio de Nicéia

Uma advertência há de ser feita aqui ao leitor sobre este assunto, pois, há uma certa discussão levantada por cismáticos e hereges em que teria uma suposta "interpretação" do Cânon 6 deste concílio, onde diria, segundo esses hereges, que o Bispo de Roma não teria autoridade nenhuma sob os outros bispos, de modo contrário, teria a mesma autoridade dos patriarcas. Sem entrarmos no mérito da discussão de "traduções" e "interpretações" do Cânon, como já demonstramos a primazia do Papa no artigo anterior nos primeiros três séculos, portanto, antes de Nicéia, não precisamos ir muito depois do término do Concílio para confirmamos a existência de uma autoridade na Igreja Cristã.

Provamos isto em quatro documentos específicos do século IV:

I. Carta do Papa Júlio I (Pontificado: 337 - 352) aos Antioquenos datada do ano de 341, onde o Sumo Pontífice adverte a Igreja de Antioquia para preservar a hierarquia da Igreja Católica decidida no I Concílio de Nicéia, que diz: "[...] segundo o cânon eclesiástico [...] Porque não foi escrito à nós?[Roma] Por acaso ignorais que o costume era este: que se escreva primeiro a nós e daí venha a ser estabelecido o que é justo?"[7]

II. Concílio de Sárdica do ano de 343, onde seguindo o Concílio de Nicéia, ordenava os bispos a recorrerem à autoridade da Sé de Roma: "Se, porém, aparecer que um dos bispos em determinada causa tenha sido condenado, e ele estiver convencido de ter não uma causa débil, porém justa, de modo que o veredicto possa ainda ser renovado, se parecer bem à vossa caridade, honremos a memória do Apóstolo Pedro, e escreva-se, por parte daqueles que julgaram, a [Júlio,] o bispo de Roma, para que, se necessário, os bispos vizinhos daquela província renovem o julgamento, e que ele designe os árbitros [...] se um bispo foi acusado, e os bispos da sua região, reunidos, o tiverem removido de seu grau, e ele, como apelante, se refugiou junto ao beatíssimo bispo da Igreja dos romanos e <este> quiser ouvi-lo e achar que seja justo, seja renovado o exame de sua causa, ele se digne escrever aos bispos vizinhos daquela província, para que eles, com solicitude e diligência, tudo indaguem e, segundo a credibilidade da verdade, apresentem uma sentença sobre a causa."[8]

III. Carta do Concílio de Sárdica do ano de 343, confirmando, não só a decisão de recorrer à Sé de Roma, mas também que ele é a cabeça da Igreja: "Esta, de fato, parecerá ser a coisa melhor e mais apropriada: que os sacerdotes do Senhor de todas as províncias recorram à cabeça, isto é, à sé do Apóstolo Pedro."[9]

IV. Carta do Papa Sirício respondendo ao bispo da província de Tarragona[10] sobre o batismo dos hereges e o celibato dos padres: "Não negamos a resposta correspondente à tua consulta, já que, em consideração ao nosso ministério, não podemos dissimular nem temos a liberdade de calar, pois que nos incumbe, mais do que a todos, o zelo pela religião cristã. Levamos o peso de todos os que estão sobrecarregados; ou, mais ainda, leva-o conosco o bem aventurado apóstolo Pedro, que em tudo, conforme acreditamos, nos protege e defende enquanto herdeiros do seu ministério. [...] acompanhando uma carta tua, tudo quanto por Nós em salutar disposição foi estabelecido obtemos assim, de um lado, que permaneçam incorruptas aquelas coisas que, não desconsideradamente, mas com previsão, com máxima prudência e ponderação, foram salutarmente estabelecidas por nós; de outro, que a todas as futuras escusas se feche o acesso, que junto a Nós a ninguém mais poderá ficar aberto."[11]

[7] (Denz. Hünermann, 132) 
[8] (Op. cit., 133 e 135) 
[9] (Op. cit., 136) 
[10] (Atualmente cidade da Espanha)
[11] (Op. cit., 181 e 182)

4. O FIM DA VIDA DE CONSTANTINO

Constantino após transferir a capital do Império de Roma para Bizâncio, o que depois tomou o nome de Constantinopla, no fim de sua vida foi convencido por arianos infiltrados em sua corte de que Ário estaria certo em sua doutrina. Foi batizado por Eusébio de Nicomédia, bispo ligado à Ário.

O Imperador exilou S. Atanásio (296 - 373) que tanto lutou contra o arianismo em Alexandria, matou seu próprio filho Crispo (299 - 326) que, por ciúme, fora acusado por sua madrasta e posteriormente, reconhecendo a inocência do filho e se arrependendo, mandou matar sua esposa Fausta (289 - 326).

Constantino, o Grande, faleceu no ano de 337, na cidade de Nicomédia, Turquia.[12]

[12] (J. J. da Rocha, Op. cit., pg. 188)

segunda-feira, 29 de julho de 2019

A Verdade sobre o Descobrimento da América

1. S. TOMÉ

Segundo historiadores, o primeiro a evangelizar o nosso Continente foi S. Tomé, o Apóstolo de N. S. Jesus Cristo. 

Sabe-se que, quando os Apóstolos se dividiram após a morte de Jesus Cristo, S. Tomé ficou responsável por evangelizar a parte da Etiópia e da Índia, entendendo-se então que, por Providência Divina, S. Tomé teria encontrado e desembarcado em nossas Terras.
Pegada de S. Tomé em S. Vicente, Baía

A. América Espanhola

Após os espanhóis chegarem na América, encontraram diversas cruzes, letras que lembravam o nome do Apóstolo e figuras que representavam S. Tomé em nossas terras. Além disso, são encontradas as mesmas evidências em Cuba, onde o chamavam de "Cemi" e no Haiti de "Tzemes".[1] 

B. América Portuguesa

Os nativos afirmavam que tinha passado por aquelas regiões um homem barbado com o nome de "Sumé" que os ensinaram doutrinas da eternidade e a cultivar mandioca, porém não foi ouvido por eles e acabou indo embora.[2] 

Afirmam ainda que ele teria partido em S. Vicente, Baía, onde deixou uma pegada, que os índios mostraram tanto aos portugueses quanto para os jesuítas.[3] 

[1] (R. Pita, História da América Portuguesa, L. I, 104; Varnhagen, História Geral do Brasil antes da sua separação e Independência de Portugal, T. I, S. IV, pg. 42)
[2] (Varnhagen, Op. cit.)
[3] (R. Pita, Op. cit., 105; J. Anchieta, Cartas, Informações e Frag. Históricos do Pe. José de Anchieta, Cap. XXIX, pg. 332)

2. CRISTOVÃO COLOMBO

Nascido em Gênova, Itália, em 1436, Cristovão Colombo, se dedicou à navegação e adquiriu através dos estudos e das viagens que fez, vasta experiência na área cosmográfica.

Colombo estudou diversas obras que corroboravam em afirmar que existia uma terra do outro lado do Oceano, o que ele acreditava ser a costa da Ásia Oriental. A principal delas foi do Cardeal francês Pedro d'Ailly, cujo exemplar da obra estudada por Cristovão,  foi encontrada na Biblioteca de Sevilha contendo diversas notas do navegante genovez. Ademais, Colombo ainda estudou o "Imago Mundi", obra geográfica do século XV a.C., e uma carta de Toscanelli, astrônomo italiano, ao cônego português Fernão Martins, que ele próprio enviou uma cópia a Colombo, onde continha diversos estudos e mapas para se chegar à Índia navegando pelo o Ocidente.[4] 

O genovez foi tratado como louco em seu país e em outras nações. Seu plano foi rejeitado por D. João II (Reinado 1477 - 1495) de Portugal e também igualmente rejeitado pela Inglaterra e pela França.

Também foi rejeitado pelo Rei da Espanha, Fernando, o Católico. Passados oito anos de perseverantes tentativas do genovez, a Rainha de Castela, Isabel, a Católica, penhorou suas próprias jóias acreditando na eficácia de suas descobertas. O que fez com que lhe desse três navios chamados: S. Maria, Pinta e S. Clara ou Ninha[5] 

[4]  (Varnhagen, Op. cit., S. V, pg. 64)
[5]  (Apelidada assim por causa de seu proprietário Juan Niño).

3. NOVO MUNDO

No dia 3 de agosto de 1492, iniciou sua expedição do Porto de Palos[6] com o título de Almirante e de Vice-Rei de todas as ilhas, mares e terras que encontrasse. 

Na viagem tiveram de superar muitas dificuldades por causa de um temporal que enfrentaram e também por causa do desânimo da tripulação. Entretanto na madrugada do dia 11 para 12 de outubro do mesmo ano avistaram a Ilha de Guanahani[7], onde Cristovão Colombo deu o nome de S. Salvador. Ali cantou o Te-Deum[8] e erguendo uma cruz, tomou posse das terras em nome do Reino de Castela. 


Cristovão Colombo chegando em S. Salvador
Da mesma forma descobriu a ilha de Cuba e do Haiti, esta última dando o nome de S. Domingos ou Espanhola. No Haiti construiu um forte onde deixou 38 soldados para proteger as terras descobertas. 

No dia 6 de março de 1493, devido à um temporal, acabou tendo que desembarcar em Lisboa com indígenas que capturou no caribe para levar à Espanha. D. João II vendo aquilo, o acolheu, no entanto, ficou preocupado, achando que esses nativos eram da Índia, que há tanto tempo procurava Portugal. No mesmo mês, voltou triunfante para a Espanha, onde foi recebido com honrarias e festas que lhe era devido, porém isso irritou alguns invejosos do genovez, que logo depois armaram um plano para derruba-lo.[9]

[6] (Atualmente território da Espanha)
[7] (Atualmente território das Ilhas das Bahamas)
[8] (Hino Cristão composto por S. Ambrósio e S. Agostinho)
[9] (P. R. Galante, História do Brasil, T. I, 20, pgs. 16-20)

4. PRISÃO E MORTE DE COLOMBO

Em suas três viagens seguintes visitou mais algumas ilhas e explorou parte considerável da costa do continente.

Na segunda viagem foi denunciado ao Reino por alguns desordeiros que Colombo castigou durante a expedição. Na terceira viagem foi preso por Bobadilla[10], que o mandou de volta para Espanha.

Logo que a Rainha Isabel soube da prisão, mandou imediatamente soltá-lo, porém o Rei Fernando não restituiu seus títulos e também não autorizou uma quarta viagem.

Em 1504, encontrou a Rainha Isabel em seu leito de morte, porém foi desprezado mais uma vez pelo Rei da Espanha, que o deixou morrer em estado de miséria na cidade de Valladolid, na Espanha, em 1506.

Suas cinzas, depositadas primeiro na Catedral de Sevilha, foram depois transferidas para o Haiti, e mais tarde para Havana. 

Cristovão Colombo foi de tal forma importante para as descobertas de nossas terras, que, no seu túmulo em Sevilha, escreveram: "A Castilla y Aragón, Nuevo Mundo dio Colón."

O genovez não teve nem se quer a glória de herdar o seu nome ao continente que descobriu, pelo fato de Américo Vespúcio (1454-1512), que navegou tanto por Portugal quanto pela Espanha, ganhar tanta fama com seus diários de viagens, que acabou herdando seu nome ao Novo Mundo.[11]

[10] (Oficial da Ordem de Calatrava)
[11] (P. R. Galante, Op. cit.)

sábado, 27 de julho de 2019

D. Henrique e o Novo Mundo

1. OBJETIVO DE PORTUGAL

Infante D. Henrique
No princípio, os principais objetivos do Reino de Portugal em suas expansões marítimas, debaixo da autoridade da Igreja Católica, eram:

1) Evangelizar os infiéis que nunca tinham ouvido falar de N. S. Jesus Cristo através do Batismo;

2) Expulsar os mouros daquelas terras, ou pela força ou os prejudicando comercialmente nas rotas;

3) De maneira honrosa estabelecer uma comunicação e comércio com alguma civilização que ali vivessem para benefício do Reino.

De forma que, o 1º objetivo era o principal e o mais importante para o Príncipe, sendo os outros dois, comparados ao primeiro, de menor importância.[1] Vê-se que D. Henrique, não tinha como prioridade o interesse comercial nas descobertas e nas capturas de mouros residentes nas regiões, mas de acordo com o próprio Antão Gonçalves, até 1441, o foco era(Cf. 2, E.): "[...] levar [a D. Henrique] algum idioma desta terra; porque sua intenção neste descobrimento não é de fins comerciais, mas sim de buscar gente desta terra tão remota da Igreja, e dar-lhes o Batismo [...]"[2]

[1] (Crônica do Descobrimento e Conquista de Guiné, Cap. V, pgs. 47-48) 
[2] (J. Barros, Dec. I, Liv. I, Caps.: II, pgs. 16 e 23-25; VI pg. 50; VII pg. 57)

2. ESCOLA DE SAGRES

A grandeza marítima de Portugal tem origem na Escola de Sagres, fundada pelo Infante[3] Dom Henrique, terceiro filho de D. João I (Reinado 1385 - 1433) e de D. Felipa de Lencastre  (Reinado 1387 - 1415)[4]. D. Henrique então, dedicando-se com toda seriedade ao estudo da astronomia, cosmografia e náutica, chamou para sua Escola o espanhol Jaime Ribas[5], cartografo e mestre em náutica, que fabricava cartas e instrumentos de navegação, o maiorquino foi o primeiro a instruir a Escola de navegação do Infante[6].

Como D. Henrique era Governador da Ordem de Cristo[7], tinha à sua disposição muitos recursos financeiros, os quais eram direcionados quase que exclusivamente para os descobrimentos marítimos, na intenção de abrir novos horizontes para a Civilização Cristã.[8]

D. Henrique, com o objetivo de tirar das mãos dos mouros o império marroquino, após entrar em guerra para tomar uma cidade islâmica chamada Ceuta (1415), no Norte da África, ali recolheu dos muçulmanos vencidos diversas informações dos povos da África Ocidental, do deserto do Saara e do país de Guiné, estas constatações seriam preciosas para servirem de base nas primeiras descobertas portuguesas.[9]

Sem demora, D. Henrique começou a mandar dois ou três navios por ano com a ordem de explorar a costa além do "Cabo Não"[10]. Aquele cabo era conhecido assim, pois, por navegações desastradas dos espanhóis, fez com que os portugueses acreditassem que seria impossível passar daquela região. Para se ter noção, tal era o preconceito dos portugueses em relação a esse Cabo, que tinha uma espécie de ditado popular na época que dizia: "Quem passa o "Cabo Não", tornará ou não!".

[3] (Nos reinos da Espanha e de Portugal, este título era atribuído a quem era filho do rei ou da rainha, porém não era herdeiro do trono na linha sucessória)
[4] (Irmã de Henrique IV, que foi rei da Inglaterra de 1399 até 1413)
[5] (Nascido na Ilha de Maiorca, na Espanha, na verdade ele se chamava Jehuda Cresques, de ascendência judaica. Mudou seu nome após se converter ao cristianismo por volta de 1391)
[6] (História Geral do Brasil antes da sua separação e Independência de Portugal, S. V, pg. 62, Varnhagen)
[7] (Ordem religiosa criada pelo rei de Portugal D. Diniz (Reinado 1279 - 1325) para substituir a extinta Ordem dos Templários, da qual herdou todos os bens, e em 1319 foram reconhecidos pelo papa João XXII)
[8] (História do Brasil, Tomo I, Cap. II, 5, P. R. Galante)
[9] (J. Barros, Dec. I, Liv. I, Cap. II, pg. 19; Os Filhos de D. João I, J. P. Oliveira Martins, Cap. II, pg. 64)
[10] (O Cabo Não, consiste atualmente no sul de Marrocos)

3. PRIMEIRAS DESCOBERTAS

A. Cabo Bojador

Superando esta superstição, logo descobriram o Cabo Bojador[11], porém ninguém ousou explorá-la, devido a dificuldades com a profundidade na costa, que, ao que tudo indica, possuía mais ou menos 48 KM de distância do alto mar, com a profundidade de apenas 2 metros, o que impedia os navegantes de desembarcarem na região.

B. Porto Santo (1418)

Ao voltar da expedição de Ceuta, D. Henrique se deparou com João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, que se ofereceram corajosamente ao Infante para explorar além do Cabo Bojador e sem hesitar D. Henrique autorizou a empreitada.

Tendo iniciado sua temida navegação, em certo ponto da viagem, eles foram arrastados por um temporal para o alto mar. Quando, desesperados, achavam que estavam perdidos, o tempo se abriu e [12].
Caravelas de navegações de D. Henrique, com a Cruz da Ordem
de Cristo
logo avistaram uma ilha deserta e lhe deram o nome de Porto Santo

Então, quando voltaram, contaram alegres ao reino sua descoberta, e, após se oferecerem ao Infante, logo obtiveram permissão de povoar a nova ilha. Rapidamente eles partiram em três navios, juntamente com o Fidalgo[13] Bartolomeu Perestrelo.

Entretanto, Perestrelo obteve um imprevisto e não conseguiu permanecer por muito tempo na ilha, pois levou uma criação de coelhos que se tornaram uma praga e devoraram todas as plantações.[14]

C. Ilha da Madeira (1419/20)

João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, que permaneceram na Ilha, decidiram examinar de perto o que parecia ser uma nuvem preta, que eles enxergavam com dificuldade constantemente no horizonte.

Deste modo, descobriram ocasionalmente uma Ilha deserta, que por causa de suas inúmeras árvores, a chamaram de Ilha da Madeira. Ela fora dividida em duas capitanias: a do Funchal para João Gonçalves Zarco e a de Machico para Tristão Vaz Teixeira.

Bartolomeu Perestelo ficou com o Porto Santo, que apesar do seu primeiro contratempo, a colonizou, e conseguiu acabar com a praga dos coelhos.[15]

D. Açores (1431)

Gonçalo Velho[16], a mando do Infante, zarpou em navegação na direção oeste de Portugal, e acabou topando com rochedos que deu o nome de Formigas. No ano seguinte, realizou uma segunda viagem e descobriu uma ilha que a chamou S. Maria, posteriormente descobriu a ilha de S. Miguel, da qual foi o primeiro administrador.

Deram a estas duas ilhas o nome de Açores porque quando chegaram viram ali uma quantidade enorme de milhafres, que pensavam na verdade serem açores.[17] Foram incluídas nesse arquipélago outras ilhas ali descobertas. [18]

E. Outros Descobrimentos

Em 1433 Gil Eanes, navegante nascido na Vila de Lagos[19], foi o primeiro a explorar o Cabo Bojador, e no ano seguinte, visitou novamente a região juntamente com Afonso Gonçalves Baldaia[20]. Passando da região do Cabo Bojador, os exploradores encontraram pegadas humanas e de camelos, mas não descobriram nada e voltaram para o Reino. Em 1436, Gil Eanes junto com Afonso Gonçalves Baldaia descobriram o Rio de Ouro[21]. A região era cercada de lobos marinhos, alguns estimavam que chegavam até cinco mil, o que fez com que eles caçassem o máximo que puderam para levar à Portugal.

No ano de 1441 Antão Gonçalves[22] retornou ao Rio de Ouro por ordem do Infante, para buscar novamente peles e óleo de lobos marinhos. Ali fez o que ordenou D. Henrique e também capturou dois mouros: sendo um homem e uma mulher.

No mesmo ano, estando Antão ainda no Rio de Ouro, recebeu o explorador português Nuno Tristão, que tinha ordens expressas de D. Henrique para explorar além daquela região. Capturaram posteriormente mais alguns nativos da região depois de uma batalha sangrenta em uma aldeia. Entre os capturados estava Adahu, que era um nobre e racionalmente superior aqueles nativos.

Antão já tendo cumprido a sua missão, retornou para Portugal. Nuno Tristão continuou a explorar além da região, conforme tinha ordenado D. Henrique, foi assim que então descobriu o Cabo Branco[23], porém acharam melhor, naquele momento, não explorar aquela terra e voltar ao Reino.[24]

Quando ambos chegam ao Reino com os infiéis, D. Henrique se alegrou, não só pela quantidade de almas que ali estavam para conhecer N. S. Jesus Cristo, mas na esperança de poder encontrar mais almas para salvar, o Infante não pensou em lucros, riquezas ou se quer benefícios econômicos que aquelas pessoas poderiam fazer ao Reino, mas sim, na principal intenção que tinha o Príncipe naqueles descobrimentos, que era a salvação daquelas almas e a propagação da Civilização Cristã.[25]

Em 1443, Nuno Tristão voltou à costa da África Ocidental, seguindo ordens de D. Henrique, onde captura mais 15 mouros e descobre a Ilha das Garças, que possuiu este nome após o navegante ter encontrado inúmeras garças naquela região, ao que tudo indica, porque era época da procriação delas.[26]

[11] (Hoje região no território de Marrocos)
[12] (Atualmente faz parte do arquipélago de Madeira)
[13] (Título da época que significava "filho de algo", o que deduziria que era proprietário de bens)
[14] (J. Barros, Dec. I, Liv. I, Cap. II, pg. 27 e 28)
[15] (História do Brasil, Tomo I, Cap. II, 8, pg. 7, P. R. Galante)
[16] (Hábil cavalheiro da Ordem de Cristo e Navegante de D. Henrique)
[17] (Açores e milhafres são aves de rapina muito parecidas)
[18] (Op. cit., 12, pg. 10)
[19] (Cidade litorânea localizada no Sul de Portugal)
[20] (Navegante e explorador de D. Henrique)
[21] (Região localizada no Norte da África. Atualmente território da Mauritânia.)
[22] (Navegante português e e guarda pessoal de D. Henrique)
[23] (Região do Norte da África, atualmente território da Mauritânia)

[24] (J. Barros Dec. I, Liv. I, Cap. V - VI)
[25] (Crônica do Descobrimento e Conquista de Guiné, Cap. XIV, pgs. 87-88)  
[26] (Monumenta Henricina, vol. VIII, doc. 44, pgs. 78-81)

4. OS ABUSOS E A POSIÇÃO DA IGREJA

Naturalmente, como em toda obra humana, ocorreram abusos nessas primeiras explorações européias, que, apesar da admirável e honrosa primeira e principal intenção de D. Henrique, não deixaram de serem cometidos.

Um dos motivos destes abusos, seria uma espécie de vingança contra o derramamento de sangue cristão pelos mouros, o que não justificaria em si tal projeto desumano que viria a manchar parte da belíssima história das descobertas portuguesas e espanholas.[27]

Logo que chegou ao conhecimento da Igreja, em 1434, Ela se posicionou diante dos abusos dos europeus com os nativos das Ilhas Canárias[28], através da Bula Creator Omnium do Papa Eugênio IV (Pontificado: 1431-1447), na qual ordenava que todos os cristãos, no prazo de 15 dias, após o conhecimento da Bula, restituíssem a liberdade aos indígenas daquele lugar, proibindo também futuramente de prende-los, transferi-los e vende-los, sob pena de excomunhão. A maior preocupação do Santo Padre era a salvação das almas, que com estes gestos, prejudicavam a evangelização dos outros nativos, que, certamente ficariam temerosos de aceitarem se converter diante de tamanho ultraje.[29]

D. Henrique desejando assegurar a posse das conquistas que tivera e de outras que planejava admiravelmente, obteve em 1436, do mesmo Sumo Pontífice, uma bula pela qual o Santo Padre concedeu à Ordem de Cristo todas as terras que foram e seriam descobertas com o fim de, conquistadas, evangelizar os infiéis que ali viviam, desde o Cabo Bojador até a Índia.[30]

Em um intervalo de 2 anos, ao mesmo tempo que a Igreja condenava a escravidão, ela incentivava e parabenizava pelos feitos europeus nas expedições, sempre maternalmente, dirigindo seus filhos para a Lei Suprema da Igreja, que é a salvação das almas. Logo, esta última Bula do Papa mostra claramente que é falsa a afirmação que a Igreja em algum momento endossou a escravidão, pelo fato de apoiar e incentivar as colonizações e descobertas dos portugueses e espanhóis.

[27] (História do Brasil, Tomo I, Cap. II, 9, pg. 7, P. R. Galante)
[28] (Atualmente território da Espanha)
[29] (Monumenta Henricina, vol. V, doc. 52, pgs. 118-123)
[30] (História da América Portuguesa, S. Rocha Pita, Liv. I, 91)