Tendo a Ordem de Cristo, do Reino de Portugal, em 1436, recebido da Igreja uma autorização de possuir todas as terras desde o Cabo Bojador até as Índias, descobertas e a descobrir, quando Colombo, acidentalmente após um temporal, desembarca em Lisboa e D. João II vê os indígenas que ali estavam, causa grande confusão, pois o Rei achou que a Espanha estava descumprindo a ordem da Igreja em relação à "Índia", nem eles mesmos sabiam que se tratava de um novo continente.
Então, em 1493, o Reino da Espanha logo pediu a confirmação daquelas descobertas para a Igreja, sendo Ela, na época, árbitra suprema dos negócios entre reinos cristãos. O Papa Alexandre VI não hesitou em conceder o que era pedido, no entanto, através de uma Bula chamada "Inter Caetera", para evitar dissenções entre os reinos, traçou uma linha imaginária desde o Polo Norte até o Polo Sul do Globo terrestre, passando a cem léguas da Ilha dos Açores e de Cabo Verde, autorizando por este documento aos soberanos espanhóis tudo o que já se tinha descoberto e se viesse a descobrir a Oeste desta linha, e à Portugal tudo ao Oriente da linha, com tanto que não tivesse sido ocupado por nenhum príncipe cristão antes do dia do Natal neste mesmo ano.
Porém, D. João II, ressentido por estarem subvertendo a ordem de sucessivos papas, que confirmavam a Bula de 1436 do Papa Eugênio IV, intercedeu à Cúria Romana e ao Reino da Espanha, porém não obteve sucesso.
O único jeito do Rei de Portugal resolver a suposta "injustiça" era preparando uma guerra contra reino de Castela. D. João II começou então os preparativos para entrar em guerra contra a Espanha, entretanto, sabendo deste acontecimento, o Rei Fernando de Castela tratou de mandar embaixadores para resolverem de forma pacífica com Portugal, por mais que, para isso, cedessem parte do território autorizado pelo Papa.
Foi então que, no dia 7 de junho de 1494 foi assinado na Cidade de Tordesilhas (Espanha), um acordo entre o Reino de Portugal e de Castela, onde o território de Portugal se acrescentaria mais duzentos e setenta léguas, totalizando trezentos e setenta léguas a Oeste de Cabo Verde e Açores.[1]
[1] (J. de Vasconcelos, Datas Célebres e Fatos Históricos do Brasil; P. R. Galanti, Compêndio da História do Brasil)
2. VASCO DA GAMA
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| Vasco da Gama |
Em 1497, o Rei confiou a Vasco da Gama, nobre e fidalgo português, a empreitada de descobrir o caminho das Índias Orientais através dos mares.
No dia 8 de julho de 1497, na Capela de Nossa Senhora da Invocação, em Belém, Vasco da Gama e os outros capitães, juntos com toda a população da Cidade, assistiram a uma Missa, fizeram uma procissão acompanhada de uma ladainha, que os Sacerdotes iam cantando e receberam uma confissão geral, absolvendo toda a tripulação daquela viagem.
A frota era composta por aproximadamente 170 pessoas em três navios chamados: S. Gabriel, S. Rafael e Berrío, o primeiro sendo comandado por Vasco da Gama e o segundo por seu irmão Paulo da Gama.[3]
[2] (Sobre a razão do "sonho" de se descobrir o Caminho das Índias Orientais, é necessário relembrar, como foi feito já anteriormente em nosso artigo, o objetivo das Expansões Marítimas iniciadas pelo Infante D. Henrique. É constantemente ensinado por historiadores contemporâneos e "professores" de história do Ensino Médio e Fundamental que o objetivo principal das Expansões eram as riquezas que aquelas regiões poderiam oferecer à Portugal, o que já sabemos que não condiz com a verdade.)
[3] (J. de Barros, Dec. I, liv. IV, Cap. II)
3. A VIAGEM ATÉ CALECUT
Após cinco meses de navegação, afim de observar a altura do sol, pois assim era a logística da viagem, Vasco da Gama desembarcou na Baía de S. Helena[4]. Em 1498 aportou em Moçambique, onde vivia um povo muçulmano. O navegante então recebeu do Xeque[5] de do país dois guias, designados a auxiliar as frotas para chegar até a Índia. Entretanto, ambos fugiram, de modo que foram substituídos por outro guia, o qual, julgou o chefe daquele povoado, conhecer mais o caminho até a Índia.
No entanto, este guia, mal intencionado ou por orientações do Xeque ou por seu próprio ódio contra os cristãos, levava toda a frota para uma armadilha na Cidade de Quiloa[6], mentindo que aquela região era povoada por cristãos, quando, ao contrário, era tomada por mouros. Contudo, como que por um milagre de Nosso Senhor, uma tempestade tomou o caminho e os desviou para longe da costa. No dia sete de abril, chegaram próximos à uma cidade chamada Moçamba[7], que, da mesma forma, o Mouro informou que ali haviam cristãos e indianos. Toda via, mais uma vez a Providência Divina livrou os portugueses de mais uma armadilha que aqueles muçulmanos ali lhes preparavam.
Tendo o guia mouro fugido, e eles capturado uma embarcação com treze mouros, com a intenção de algum deles os orientar para chegar até a Índia, os navegantes chegaram até a cidade de Melinde[8], região onde havia muitos mercadores de especiarias da Índia, os quais poderiam ajudá-los a chegar em Calecut.
Deste modo retratou o poeta Luís de Camões da negociação entre os navegantes e o Rei de Melinde:
"Como na terra ao Rei se apresentasse,
Com estilo que Palas lhe ensinava,
Estas palavras tais falando orava: [...]
«Não somos roubadores que, passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vão matando,
Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
Mas, da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da Índia, grande e rica, por mandado
De um Rei que temos, alto e sublimado.»[...]
E com risonha vista e ledo aspeito,
Responde ao embaixador, que tanto estima:
- «Toda a suspeita má tirai do peito,
Nenhum frio temor em vós se imprima,
Que vosso preço e obras são de jeito
Para vós ter o mundo em muita estima;
E quem vos fez molesto tratamento
Não pode ter subido pensamento.[...]
«Porém, como a luz crástina chegada
Ao mundo for, em minhas almadias
Eu irei visitar a forte armada,
Que ver tanto desejo há tantos dias.
E, se vier do mar desbaratada
Do furioso vento e longas vias,
Aqui terá de limpos pensamentos
Piloto, munições e mantimentos.»[...]"[9]
Assim, estabeleceu a paz com aquele reino e conseguiu um piloto até Calecut.[10]
[4] (Atualmente território da África do Sul)
[5] (Autoridade islâmica)
[6] (Atualmente território da Tanzânia)
[7] (Atualmente território da Quênia)
[8] (Atualmente território da Quênia)
[9] (L. de Camões, Os Lusíadas, Canto II)
[10] (J. de Barros, op. cit., Cap. IV)
3. CALECUT
Finalmente chegaram em 1498 em nas Índias Orientais. Naquela época, os habitantes de Calecut eram pagãos e mouros, principalmente naturais de Meca e Cairo, devido ao grande comércio de especiarias presente naquela região.
Os portugueses foram muito bem recebidos pelo Samorim de Calecut, o que equivaleria a Imperador em nossos conhecimentos ocidentais, o qual elogiou constantemente Vasco da Gama, como homem prudente, de boa fé e ótimo negociador.
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| Vasco da Gama perante o Samorim de Calecut |
Entretanto, os Mouros que lá viviam, tantos os nascidos, quanto os estrangeiros, que eram senhores do comércio da cidade, percebendo a aproximação do Samorim com os portugueses, trataram logo de envenena-lo com falsas histórias e até astrologia para difamar a frota cristã.
Com medo de perder o monopólio comercial dos países mouros, que lhes dava segurança comercial, vassalos, além de proximidade geográfica, de modo contrário dos portugueses que precisavam de meses para chegar até ali, o Samorim decidiu por não fechar acordo com eles, e os despediu.[11]
[11] (P. R. Galanti, op. cit., pg. 24; J. de Barros, op. cit., Cap. IX)
4. VOLTA À PORTUGAL
Saíram então de Calecut e retornaram à Melinde em janeiro de 1499, onde o Rei mandou um embaixador até D. Manuel.
Na viagem de retorno acabaram perdendo o navio S. Rafael e faleceu também, como já estava doente, seu irmão, Paulo da Gama.
Antes de chegar em Lisboa, em 29 de agosto de 99, Vasco da Gama se dirigiu à Capela de Nossa Senhora da Invocação, para agradecer à Nosso Senhor por sua feliz viagem.
Foi recebido pelo Rei e pelo povo, com grande honra e festa. Recebeu o título de Dom, de conde da Vidigueira, e de Almirante dos mares da Índia, juntamente com a renda de trezentos mil réis anuais, e outros privilégios estimados.[12]
[12] (P. R. Galanti, op. cit.)

