sábado, 27 de julho de 2019

D. Henrique e o Novo Mundo

1. OBJETIVO DE PORTUGAL

Infante D. Henrique
No princípio, os principais objetivos do Reino de Portugal em suas expansões marítimas, debaixo da autoridade da Igreja Católica, eram:

1) Evangelizar os infiéis que nunca tinham ouvido falar de N. S. Jesus Cristo através do Batismo;

2) Expulsar os mouros daquelas terras, ou pela força ou os prejudicando comercialmente nas rotas;

3) De maneira honrosa estabelecer uma comunicação e comércio com alguma civilização que ali vivessem para benefício do Reino.

De forma que, o 1º objetivo era o principal e o mais importante para o Príncipe, sendo os outros dois, comparados ao primeiro, de menor importância.[1] Vê-se que D. Henrique, não tinha como prioridade o interesse comercial nas descobertas e nas capturas de mouros residentes nas regiões, mas de acordo com o próprio Antão Gonçalves, até 1441, o foco era(Cf. 2, E.): "[...] levar [a D. Henrique] algum idioma desta terra; porque sua intenção neste descobrimento não é de fins comerciais, mas sim de buscar gente desta terra tão remota da Igreja, e dar-lhes o Batismo [...]"[2]

[1] (Crônica do Descobrimento e Conquista de Guiné, Cap. V, pgs. 47-48) 
[2] (J. Barros, Dec. I, Liv. I, Caps.: II, pgs. 16 e 23-25; VI pg. 50; VII pg. 57)

2. ESCOLA DE SAGRES

A grandeza marítima de Portugal tem origem na Escola de Sagres, fundada pelo Infante[3] Dom Henrique, terceiro filho de D. João I (Reinado 1385 - 1433) e de D. Felipa de Lencastre  (Reinado 1387 - 1415)[4]. D. Henrique então, dedicando-se com toda seriedade ao estudo da astronomia, cosmografia e náutica, chamou para sua Escola o espanhol Jaime Ribas[5], cartografo e mestre em náutica, que fabricava cartas e instrumentos de navegação, o maiorquino foi o primeiro a instruir a Escola de navegação do Infante[6].

Como D. Henrique era Governador da Ordem de Cristo[7], tinha à sua disposição muitos recursos financeiros, os quais eram direcionados quase que exclusivamente para os descobrimentos marítimos, na intenção de abrir novos horizontes para a Civilização Cristã.[8]

D. Henrique, com o objetivo de tirar das mãos dos mouros o império marroquino, após entrar em guerra para tomar uma cidade islâmica chamada Ceuta (1415), no Norte da África, ali recolheu dos muçulmanos vencidos diversas informações dos povos da África Ocidental, do deserto do Saara e do país de Guiné, estas constatações seriam preciosas para servirem de base nas primeiras descobertas portuguesas.[9]

Sem demora, D. Henrique começou a mandar dois ou três navios por ano com a ordem de explorar a costa além do "Cabo Não"[10]. Aquele cabo era conhecido assim, pois, por navegações desastradas dos espanhóis, fez com que os portugueses acreditassem que seria impossível passar daquela região. Para se ter noção, tal era o preconceito dos portugueses em relação a esse Cabo, que tinha uma espécie de ditado popular na época que dizia: "Quem passa o "Cabo Não", tornará ou não!".

[3] (Nos reinos da Espanha e de Portugal, este título era atribuído a quem era filho do rei ou da rainha, porém não era herdeiro do trono na linha sucessória)
[4] (Irmã de Henrique IV, que foi rei da Inglaterra de 1399 até 1413)
[5] (Nascido na Ilha de Maiorca, na Espanha, na verdade ele se chamava Jehuda Cresques, de ascendência judaica. Mudou seu nome após se converter ao cristianismo por volta de 1391)
[6] (História Geral do Brasil antes da sua separação e Independência de Portugal, S. V, pg. 62, Varnhagen)
[7] (Ordem religiosa criada pelo rei de Portugal D. Diniz (Reinado 1279 - 1325) para substituir a extinta Ordem dos Templários, da qual herdou todos os bens, e em 1319 foram reconhecidos pelo papa João XXII)
[8] (História do Brasil, Tomo I, Cap. II, 5, P. R. Galante)
[9] (J. Barros, Dec. I, Liv. I, Cap. II, pg. 19; Os Filhos de D. João I, J. P. Oliveira Martins, Cap. II, pg. 64)
[10] (O Cabo Não, consiste atualmente no sul de Marrocos)

3. PRIMEIRAS DESCOBERTAS

A. Cabo Bojador

Superando esta superstição, logo descobriram o Cabo Bojador[11], porém ninguém ousou explorá-la, devido a dificuldades com a profundidade na costa, que, ao que tudo indica, possuía mais ou menos 48 KM de distância do alto mar, com a profundidade de apenas 2 metros, o que impedia os navegantes de desembarcarem na região.

B. Porto Santo (1418)

Ao voltar da expedição de Ceuta, D. Henrique se deparou com João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, que se ofereceram corajosamente ao Infante para explorar além do Cabo Bojador e sem hesitar D. Henrique autorizou a empreitada.

Tendo iniciado sua temida navegação, em certo ponto da viagem, eles foram arrastados por um temporal para o alto mar. Quando, desesperados, achavam que estavam perdidos, o tempo se abriu e [12].
Caravelas de navegações de D. Henrique, com a Cruz da Ordem
de Cristo
logo avistaram uma ilha deserta e lhe deram o nome de Porto Santo

Então, quando voltaram, contaram alegres ao reino sua descoberta, e, após se oferecerem ao Infante, logo obtiveram permissão de povoar a nova ilha. Rapidamente eles partiram em três navios, juntamente com o Fidalgo[13] Bartolomeu Perestrelo.

Entretanto, Perestrelo obteve um imprevisto e não conseguiu permanecer por muito tempo na ilha, pois levou uma criação de coelhos que se tornaram uma praga e devoraram todas as plantações.[14]

C. Ilha da Madeira (1419/20)

João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, que permaneceram na Ilha, decidiram examinar de perto o que parecia ser uma nuvem preta, que eles enxergavam com dificuldade constantemente no horizonte.

Deste modo, descobriram ocasionalmente uma Ilha deserta, que por causa de suas inúmeras árvores, a chamaram de Ilha da Madeira. Ela fora dividida em duas capitanias: a do Funchal para João Gonçalves Zarco e a de Machico para Tristão Vaz Teixeira.

Bartolomeu Perestelo ficou com o Porto Santo, que apesar do seu primeiro contratempo, a colonizou, e conseguiu acabar com a praga dos coelhos.[15]

D. Açores (1431)

Gonçalo Velho[16], a mando do Infante, zarpou em navegação na direção oeste de Portugal, e acabou topando com rochedos que deu o nome de Formigas. No ano seguinte, realizou uma segunda viagem e descobriu uma ilha que a chamou S. Maria, posteriormente descobriu a ilha de S. Miguel, da qual foi o primeiro administrador.

Deram a estas duas ilhas o nome de Açores porque quando chegaram viram ali uma quantidade enorme de milhafres, que pensavam na verdade serem açores.[17] Foram incluídas nesse arquipélago outras ilhas ali descobertas. [18]

E. Outros Descobrimentos

Em 1433 Gil Eanes, navegante nascido na Vila de Lagos[19], foi o primeiro a explorar o Cabo Bojador, e no ano seguinte, visitou novamente a região juntamente com Afonso Gonçalves Baldaia[20]. Passando da região do Cabo Bojador, os exploradores encontraram pegadas humanas e de camelos, mas não descobriram nada e voltaram para o Reino. Em 1436, Gil Eanes junto com Afonso Gonçalves Baldaia descobriram o Rio de Ouro[21]. A região era cercada de lobos marinhos, alguns estimavam que chegavam até cinco mil, o que fez com que eles caçassem o máximo que puderam para levar à Portugal.

No ano de 1441 Antão Gonçalves[22] retornou ao Rio de Ouro por ordem do Infante, para buscar novamente peles e óleo de lobos marinhos. Ali fez o que ordenou D. Henrique e também capturou dois mouros: sendo um homem e uma mulher.

No mesmo ano, estando Antão ainda no Rio de Ouro, recebeu o explorador português Nuno Tristão, que tinha ordens expressas de D. Henrique para explorar além daquela região. Capturaram posteriormente mais alguns nativos da região depois de uma batalha sangrenta em uma aldeia. Entre os capturados estava Adahu, que era um nobre e racionalmente superior aqueles nativos.

Antão já tendo cumprido a sua missão, retornou para Portugal. Nuno Tristão continuou a explorar além da região, conforme tinha ordenado D. Henrique, foi assim que então descobriu o Cabo Branco[23], porém acharam melhor, naquele momento, não explorar aquela terra e voltar ao Reino.[24]

Quando ambos chegam ao Reino com os infiéis, D. Henrique se alegrou, não só pela quantidade de almas que ali estavam para conhecer N. S. Jesus Cristo, mas na esperança de poder encontrar mais almas para salvar, o Infante não pensou em lucros, riquezas ou se quer benefícios econômicos que aquelas pessoas poderiam fazer ao Reino, mas sim, na principal intenção que tinha o Príncipe naqueles descobrimentos, que era a salvação daquelas almas e a propagação da Civilização Cristã.[25]

Em 1443, Nuno Tristão voltou à costa da África Ocidental, seguindo ordens de D. Henrique, onde captura mais 15 mouros e descobre a Ilha das Garças, que possuiu este nome após o navegante ter encontrado inúmeras garças naquela região, ao que tudo indica, porque era época da procriação delas.[26]

[11] (Hoje região no território de Marrocos)
[12] (Atualmente faz parte do arquipélago de Madeira)
[13] (Título da época que significava "filho de algo", o que deduziria que era proprietário de bens)
[14] (J. Barros, Dec. I, Liv. I, Cap. II, pg. 27 e 28)
[15] (História do Brasil, Tomo I, Cap. II, 8, pg. 7, P. R. Galante)
[16] (Hábil cavalheiro da Ordem de Cristo e Navegante de D. Henrique)
[17] (Açores e milhafres são aves de rapina muito parecidas)
[18] (Op. cit., 12, pg. 10)
[19] (Cidade litorânea localizada no Sul de Portugal)
[20] (Navegante e explorador de D. Henrique)
[21] (Região localizada no Norte da África. Atualmente território da Mauritânia.)
[22] (Navegante português e e guarda pessoal de D. Henrique)
[23] (Região do Norte da África, atualmente território da Mauritânia)

[24] (J. Barros Dec. I, Liv. I, Cap. V - VI)
[25] (Crônica do Descobrimento e Conquista de Guiné, Cap. XIV, pgs. 87-88)  
[26] (Monumenta Henricina, vol. VIII, doc. 44, pgs. 78-81)

4. OS ABUSOS E A POSIÇÃO DA IGREJA

Naturalmente, como em toda obra humana, ocorreram abusos nessas primeiras explorações européias, que, apesar da admirável e honrosa primeira e principal intenção de D. Henrique, não deixaram de serem cometidos.

Um dos motivos destes abusos, seria uma espécie de vingança contra o derramamento de sangue cristão pelos mouros, o que não justificaria em si tal projeto desumano que viria a manchar parte da belíssima história das descobertas portuguesas e espanholas.[27]

Logo que chegou ao conhecimento da Igreja, em 1434, Ela se posicionou diante dos abusos dos europeus com os nativos das Ilhas Canárias[28], através da Bula Creator Omnium do Papa Eugênio IV (Pontificado: 1431-1447), na qual ordenava que todos os cristãos, no prazo de 15 dias, após o conhecimento da Bula, restituíssem a liberdade aos indígenas daquele lugar, proibindo também futuramente de prende-los, transferi-los e vende-los, sob pena de excomunhão. A maior preocupação do Santo Padre era a salvação das almas, que com estes gestos, prejudicavam a evangelização dos outros nativos, que, certamente ficariam temerosos de aceitarem se converter diante de tamanho ultraje.[29]

D. Henrique desejando assegurar a posse das conquistas que tivera e de outras que planejava admiravelmente, obteve em 1436, do mesmo Sumo Pontífice, uma bula pela qual o Santo Padre concedeu à Ordem de Cristo todas as terras que foram e seriam descobertas com o fim de, conquistadas, evangelizar os infiéis que ali viviam, desde o Cabo Bojador até a Índia.[30]

Em um intervalo de 2 anos, ao mesmo tempo que a Igreja condenava a escravidão, ela incentivava e parabenizava pelos feitos europeus nas expedições, sempre maternalmente, dirigindo seus filhos para a Lei Suprema da Igreja, que é a salvação das almas. Logo, esta última Bula do Papa mostra claramente que é falsa a afirmação que a Igreja em algum momento endossou a escravidão, pelo fato de apoiar e incentivar as colonizações e descobertas dos portugueses e espanhóis.

[27] (História do Brasil, Tomo I, Cap. II, 9, pg. 7, P. R. Galante)
[28] (Atualmente território da Espanha)
[29] (Monumenta Henricina, vol. V, doc. 52, pgs. 118-123)
[30] (História da América Portuguesa, S. Rocha Pita, Liv. I, 91)



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