quinta-feira, 25 de julho de 2019

Cristãos Primitivos - PARTE II

Este capítulo pertence a uma série sobre a cristianização do Ocidente.

1. CRESCIMENTO E PROPAGAÇÃO DO CRISTIANISMO

Segundo a Era Cristã, Jesus Cristo nasceu no ano trinta do reinado de Augusto, 753 de Roma. Batizado por S. João Batista, iniciou sua divina pregação no 15º ano do Imperador Tibério, tendo uns trinta anos de idade. Morreu, ressuscitou e subiu ao Céu no 18º ano do mesmo imperador, 33º da sua idade.

Os apóstolos, depois de receberem o divino Espírito Santo, fundaram a Igreja de Jerusalém, celebrando ali mesmo o primeiro Concílio[1]. Dividindo entre si todo o mundo e inaugurando os primeiros bispados, selaram sua fé com o próprio sangue. S. Pedro foi para a Antioquia, e depois para Roma, onde derrotou Simão, o Mago[2] e recebeu a coroa do martírio juntamente com S. Paulo, que tinha pregado na Ásia Menor, na Grécia, na Ilha de Chipre, e talvez também nas Gálias, na Espanha e na Grã-Bretanha.


Pentecostes, o início da Igreja

O Cristianismo foi propagado com admirável rapidez, segundo consta na carta de Plinio (61 d.C. - 114 d.C.)[3] ao Imperador Trajano (Reinado: 98 d.C. - 117 d.C.) e pela de Graniano (Procônsul da Ásia, Mandato: 121 d.C. - 122 d.C.) ao Imperador Adriano (Reinado: 117 d.C. - 138 d.C.), os quais no início do século II afirmaram que na Ásia haviam cidades inteiras de cristãos. No fim deste mesmo século, Tertuliano (160 d.C. - 220 d.C.)[4], S. Irineu, bispo de Lyon (130 d.C. - 202 d.C.) e S. Justino, teólogo do século I (100 d.C. - 165 d.C.) em escritos apologéticos puderam assegurar que os Cristãos já tinham penetrado por toda a parte, de modo que se fossem mortos, muitas cidades e províncias ficariam desertas. Não se pode dizer, também, que só se convertiam os pobres e ignorantes, porque achamos entre eles filósofos, senadores, procônsuls, generais, e até parentes próximos do Imperador. 

Entre os meios que de algum modo facilitaram esta propagação, estão: a unidade do Império Romano; a multiplicação da língua grega; a civilização material e intelectual sofrivelmente adiantada e uma espera de suas reparações.

[1] (Livro dos Atos dos Apóstolos, Cap. XV)

[2] (Ilusionista relatado nas Escrituras, no Livro dos Atos dos apóstolos, que tentou comprar dos apóstolos o poder que Nosso Senhor lhes dera de operar milagres.)
[3] (Era chamado de "Plinio, o jovem", foi orador e panegírico do Imperador)
[4] (Teólogo, autor de alguns dos primeiros documentos do cristianismo primitivo)

2. SUPREMACIA DO PAPA

Jesus Cristo demonstrou a divindade de sua missão por inumeráveis milagres e bem assim por sua vida e Santa Doutrina. Insistiu muito em provar sua humanidade e divindade; ensinou a Unidade e a Trindade de Deus, a eternidade da vida futura, o amor a Deus e ao próximo, a humildade e mortificação da carne, a pobreza efetiva ou de espírito e a castidade, como obrigação; a pobreza efetiva e a virgindade, como conselho, etc. Elevou a Sacramento o Matrimônio, que declarou indissolúvel por sua natureza; instituiu o sacerdócio e o episcopado, etc. 

Ao mandar os Apóstolos pregar em todo o mundo[5], conferiu-lhes o poder de perdoar os pecados (poder das chaves)[6], e lhes prometeu sua assistência perpétua[7]. Por fim, colocou S. Pedro a frente de sua Igreja contra a qual "as portas do inferno não prevalecerão"[8]
São Pedro com as chaves dadas por N. S. Jesus Cristo


A supremacia do Papa nos primeiros séculos, prova-se pelos seguintes acontecimentos: 

1) Recurso da Igreja de Corinto à Santa Sé (século I)[9];

2) Pela questão da data da Páscoa entre os papas S. Aniceto (Pontificado: 155 d.C. - 166 d.C.) e S. Vitor (Pontificado: 189 d.C. - 199 d.C.) de um lado e os bispos S. Policarpo (de Esmirna; 69 d.C. - 155 d.C.) e Policrates (de Éfeso; 125 d.C. - 196 d.C.) do outro, pois estes não negavam que o Papa pudesse intervir nos negócios da sua diocese, embora recusassem obedecer apelando para as tradições locais.[10]

3) Pelos os acontecimentos que ocorreram na perseguição do Imperador Romano Décio (Reinado: 249 d.C. - 251 d.C.) entre Roma e Cártago. S. Cipriano (210 d.C. - 258 d.C.), Bispo da Cidade de Cártago, foi acusado em Roma de ter abandonado seu rebanho, pois havia se escondido das perseguições do Império Romano. O Bispo de Cártago recusou reconciliar os apóstatas[11] que pediam desesperadamente para que fossem recebidos de volta na Igreja, não obtendo resposta, estes recorreram ao Papa S. Cornélio (Pontificado 251 d.C. - 253 d.C.). Em ambos os casos, o Santo Bispo, longe de negar a supremacia do Sumo Pontífice, justificou perante ele o seu proceder.[12];

4) Pela questão do Batismo dos hereges, ocorreu a divergência entre S. Cipriano, e o Papa S. Estevão I (Pontificado 254 d.C. - 257 d.C.). Embora S. Cipriano tenha defendido por algum tempo que o Batismo dos hereges era inválido, nunca recusou a autoridade do Papa, cuja decisão se submeteu no fim;

5) Pelo o que houve na ocasião do cisma de Novaciano (200 d.C. - 258 d.C.), que foi antipapa e negou o poder das chaves. Tendo o Papa S. Cornélio deposto três bispos que tinham sagrado o antipapa foi aplaudido por toda a Igreja.[13];

6)Pelo fato do Papa S. Dionísio (Pontificado 259 d.C. - 268 d.C.) ter chamado à Roma S. Dionísio de Alexandria (200 d.C. - 255 d.C.), que acusado de ter negado a Santíssima Trindade, não recusou obedecer o Bispo de Roma, de modo contrário, o Patriarca S. Dionísio se justificou e se retratou.

Entre os numerosos testemunhos dos primeiros séculos em favor da supremacia do Sumo Pontífice é precioso o de Tertuliano, quando já apóstata, declarou que o Papa é o bispo dos bispos. 

[5] (Ev. S. Marcos Cap. XVI, v. XV)
[6] (Ev. S. João Cap. XX, v. XXIII)
[7] (Ev. S. Mateus Cap. XXVIII, v. XX)
[8] (Ev. S. Mateus Cap. XVI, v. XVIII). 
[9] (O Papa S. Clemente enviou uma carta à Igreja de Corinto datada do ano de 97 d.C., que tinha o objetivo de repreende-los contra a injusta deposição dos presbíteros da Igreja, provando assim a superioridade hierárquica do Bispo de Roma)
[10] (Esta foi uma divergência histórica entre a Igreja Oriental e Ocidental sobre a data da Páscoa em que diante do impasse os Papas S. Aniceto e S. Vitor autorizaram a Igreja Oriental a seguir suas tradições de calendário, sem quebrar assim a comunhão com Roma)
[11] (S. Cipriano defendeu, por um tempo, que os cristãos que negavam a Cristo com receio do martírio deveriam ser "rebatizados")
[12] (Existe uma carta de S. Cipriano enviado à Igreja de Roma com o título de "Epístola 20" que justifica o porque ele se escondeu das perseguições. A lógica é que, se S. Cipriano não reconhecesse autoridade em Roma, não haveria o porquê de se justificar)

[13] (O que viria a ser futuramente conhecido, este gesto, como Aclamação Pública da Igreja, para confirmar a autenticidade do Papa escolhido pelo Magistério, para evitar falsos papas)

4. CONTRIBUIÇÃO CATÓLICA PARA AS CIÊNCIAS E AS ARTES DOS PRIMEIROS SÉCULOS

A Igreja Católica sempre promoveu, por toda a história, a ciência e as artes, sendo elas importantíssimas para desenvolver, ensinar e propagar seus dogmas, também para o seu culto e para defender-se dos contínuos ataques de seus inimigos.

Portanto a Igreja Católica é uma sociedade essencialmente sábia e civilizadora, não só no sentido de civilização moral, mas também intelectual e material. Foi por isto que a Igreja, seguindo o conselho de S. Pedro[14] e de S. Paulo[15]estabeleceu as escolas episcopais que foram os melhores focos de ciência, de artes e de civilização verdadeira. 

Já no século I, os simples fiéis da época escreveram O Pastor de Hermas.[16]

Fundaram no século II as escolas filosóficas de Alexandria, Cártago e de Roma. 

Ensinavam em Roma S. Justino e em Cártago, Tertuliano, S. Cipriano e outros.

A escola de Alexandria, que começou propriamente com S. Marcos (Evangelista) foi continuada por: S. Panteno (140 d.C. - 200 d.C.); S. Clemente de Alexandria (150 d.C. - 215 d.C.); Orígenes (185 d.C. - 253 d.C.); Dídimo, o cego (313 d.C. - 398 d.C.); S. Demétrio de Alexandria (? - 232 d.C.) e muitos outros ilustres teólogos, filósofos e oradores. 

Os primeiros cristãos cultivavam também as artes, as quais se provam pelas catacumbas e primeiras igrejas construídas nestes séculos. 


Catacumba do Papa S. Calisto, datada do século III. Ali está representado o peixe, símbolo para se identificar os cristãos na época e a Eucaristia em cima.
[14] ("Mas tratai santamente o Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre para responder a todo o que vos pedir razão daquela esperança que há em vós",  I Livro de S. Pedro, Cap. III, v. XV)
[15] ("Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que está em Jesus Cristo, e que ouviste de mim, diante de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, capazes de instruir também a outros.",  II Epístola de S. Paulo à Timóteo, Cap. II, vs. I e II)
[16] (Obra usada pelos cristãos nos primeiros séculos para catequizar os recém-convertidos)

5. PRINCIPAIS HERESIAS

A. Século I

Podem-se dividir as heresias do século I em duas classes:

1) As que derivam diretamente do Judaísmo, e foram ensinadas por Cerinto (século I), pelos ebionitas e nazarenos. Estes defendiam a necessidade da lei mosaica; negavam a divindade de Jesus Cristo e a virgindade de Nossa Senhora.

2) As que emanam do paganismo. Seus chefes foram os nicolaítas, Menandro (século I), Himeneu e Fileto[17] que assumiam os títulos de gnósticos ou sábios. Suas doutrinas misturam opiniões filosóficas do Egito, da Índia e da Pérsia, referia-se sobretudo à criação da matéria e a existência do mal. Recusando a solução dada pela Igreja e pretendendo guiar-se exclusivamente pela razão natural, caíram nos maiores absurdos.

B. Século II 

1) Valentim (100 d.C. - 160 d.C.), Marcião (85 d.C. - 160 d.C.) e Cerdão (? - 138 d.C.), que revestindo o gnosticismo com capa de religião, o tornaram ainda mais perigoso. Foi deste novo gnosticismo que nasceram incontáveis heresias e heresiarcas. Ensinavam erros altamente grosseiros; admitiam a doutrina dos dois princípios[18]; praticavam grande imoralidade.[19]; e mostravam satânico orgulho se assoberbando contra os sábios.

2) Montano (século II) teve a pretensão de limitar o poder das chaves.

3) Milenaristas diziam que no fim do mundo os justos ficariam ainda por mil anos aproveitando todos os prazeres da Terra. É importante ressaltar que o milenarismo ensinado por S. Justino e S. Irineu, posteriormente condenado pelo Papa S. Dâmaso (Pontificado 366 d.C. - 384 d.C.), era muito diferente do dos hereges, que entrou em extinção ainda no século II. O santos excluíam dessa teoria todo prazer sensual, este sendo o ponto principal dos hereges. Erra, pois, ou mente Draper (1811 - 1882)[20], quando sem distinção, atribui o milenarismo à S. Justino e S. Irineu.

C. Século III  

1) O herege Paulo de Samósata (200 d.C. - 275 d.C.) ensinou haver duas pessoas distintas em Jesus Cristo: uma divina e a outra humana. Posteriormente foi deposto pelos bispos, porém só realmente abandonou seus postos eclesiásticos quando foi obrigado pelo Imperador Aureliano (Reinado: 270 d.C. - 275 d.C.)

2) Os maniqueistas professavam a doutrina dos dois princípios juntamente com uma infinidade de outros erros. Perseguidos na Pérsia, onde Manes (216 d.C. - 274 d.C.), seu chefe, morreu esfolado vivo, invadiram a Europa pelos meados do século III, perpetuando-se sob diversos nomes até hoje.

Todos esses hereges causavam gravíssimos males à Igreja, porque corrompiam seus dogmas fundamentais, e também iludiam os ignorantes, que, sendo pagãos, não sabiam distinguir a Santa Doutrina ensinada por N. S. Jesus Cristo aos Apóstolos da dos hereges.

[17] (II Carta de S. Paulo a Timóteo, Cap. II, vs. XVI a XVIII)
[18] (Acreditavam estes gnósticos que haviam dois deuses, o "mau" do Antigo Testamento e o "bom" do Novo Testamento)
[19] (Tais como suicídio, prostituição e libertinagens sexuais)
[20] (Historiador e cientista americano)

(Compêndio da História Universal, 4ª Edição, S. Paulo, 1907, Pe. Galante, pgs. 105-109)

Nenhum comentário:

Postar um comentário